Compartilhamento de fotografias não é mais o primeiro interesse

Pesquisas recentes acerca dos sites de redes sociais (SRSs) tem constatado que são os jogos sociais o motivo pelo qual os usuários participam dos mesmos. Dessa forma, o compatilhamento de fotografias fica em segundo lugar no que se refere ao principal interesse; e é possível salientar uma relação disto com o crescimento do Facebook, que apresenta um grande número e variedade de jogos.

Porém, a forma mais comum de contribuição de conteúdo no Facebook é o upload de fotos; a página de fotografias do referido site atrai mais de duas vezes o tráfego se comparado com três maiores sites de compartilhamento de fotografias. Não se trata apenas de fazer o upload de fotos, existem também mecanismos do site para o que Moira Burke, Cameron Marlow e Thomas Lento chamaram de aprendizagem social[1]. Além disso, as fotos aparecem em muitos momentos e páginas, incluindo álbuns recém criados, as fotografias de novos usuários, álbuns de seus amigos, seus feeds de notícias e dos seus perfis; portanto, há muitas oportunidades para ambos a criação de estratégias representação através das fotos e para a experiência do compartilhamento das mesmas. Contudo, há de se ressaltar aqui a atenção dada aos jogos sociais, tanto por parte das pesquisas como pelos usuários.

Jogos sociais
Jogos sociais – da forma como são compreendidos na internet – surgiram no Facebook em 2007, com o lançamento da plataforma. Desde então, passou para mais de 500 milhões de visitantes mensalmente, e mais de 70% dos visitantes utilizam desses aplicativos. No ano passado, os jogos sociais tornaram-se uma das mais populares formas de aplicativos sociais, gerando algo em torno de US$ 500 milhões em receita – a maioria das quais provenientes do Facebook. De acordo com reportagem do site Mashable, Embora o Facebook seja o site com mais usuários, reúne menos de 30% dos visitantes únicos nas redes sociais da internet. Há cerca de 40 SRSs com mais de 10 milhões únicos mensais e cerca de 150 com mais de 1 milhão. As empresas que compõem o restante desse tráfego dos SRSs estão apenas começando a perceber o empenho e os benefícios de monetização dos jogos sociais. Alguns, como o Quepasa, fizeram dos jogos sociais uma parte central de sua estratégia.

Farmville: o mais popular do Facebook

Farmville: um dos mais populares do Facebook

Sem querer discorrer muito acerca dos jogos sociais, cito aqui parte da pesquisa de Raquel Recuero, na qual levanta características fundamentais do público: a idade dos jogadores tem uma variação maior do que a dos games em geral. Como os sites de rede social congregam uma quantidade enorme de pessoas, o comportamento de “cascata” possibilita – assim como com as fotografias – que esses jogos espalhem-se também dentro de redes sociais mais heterogêneas, como círculos familiares. E, por fim, são jogos que necessitam de pouco investimento para aprendizado e que rapidamente oferecem benefícios sociais e individuais para os jogadores – possibilitando assim a aquisição de jogadores.

Fotos
Ainda assim, penso que o interesse por compartilhar fotografias é fundamental para o estabelecimento de laços entre usuários, como também para a inserção de novos usuários. Isto porque é algo anterior à internet, a exemplo dos clubes de fotografias ou das reuniões entre amigos e parentes para compartilhar álbuns. Existe uma afinidade por perceber o que as fotos podem revelar de um indivíduo, e de como são capazes de tecer formas de subjetivação por meio destas.

Sem esquecer aqui de mencionar os sites de compartilhamento de conteúdos, nos quais há também um espaço para o compartilhamento de fotografias. Não quero aqui me posicionar como um defensor disto ou daquilo, mas simplesmente constatar que o impulso por interagir com outros indivíduos através das fotografias perpassa tanto a internet como a afinidade por uma fotografia com um viés mais artístico, digamos. E isto faz com que o ato de compartilhar não perca a importância enquanto recurso para os sites de redes sociais. Ainda, tal impulso trata-se de uma relação complexa, que envolve a ativação de nós semânticos – os quais remetem a momentos diversos de nossas vidas – ou a percepção em torno de uma estratégia de representação do “eu”, dentre outras formas de perceber o fenômeno, e sua fácil adesão.


[1] Artigo: Feed Me: Motivating Newcomer Contribution in Social Network Sites (2009).

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Onde estão meus amigos do Fotolog?

Página inicial do Fotolog: poucas mudanças com o passar dos anos, no geral

Em uma primeira análise, a resposta para a pergunta do título desse post seria: em nenhum lugar. Isto porque, o Fotolog, que num tempo longínquo para esse ambiente online – no início e até meados dessa década – era um dos sites de redes sociais mais populares no Brasil, passou a perder força a partir de 2005 e atualmente é utilizado por um número bastante inferior: é apenas o 416º e o 75º no Brasil, de acordo com a medida de traffic rank do Alexa.

Em 2004, no seu período mais expressivo, o Brasil tinha mais de 200 mil fotologs, sendo à época o país com maior número de fotologs cadastrados no sistema. Já no início de 2006, o site retirou as estatísticas do ar – provavelmente devido a perda no número de usuários, se comparado proporcionalmente a outros sites que cresceram. No próprio site, as estatísticas apresentadas são de 2008, e não fazem mais referências a comparações com outros sites promotores de redes sociais no Brasil.

Por que isto aconteceu?

Fazendo uma análise mais considerável, pensei nesse post ao começar a vasculhar minha antiga conta no site, e relembrar um pouco os momentos passados, e como estes foram bons o suficiente para achar que não poderiam ter acabado. Daí, passei a procurar por motivos que tenham ocasionado um desinteresse pelo site por parte dos brasileiros, em geral. Penso em dois motivos, que inclusive podem caminhar juntos: (1) o fotolog possui muito menos recursos de personalização e interação se comparado a outros sites e (2) outros sites, a exemplo dos sites de relacionamentos como Orkut e Facebook, passaram a adotar recursos de compartilhamento de fotografias semelhantes aos do fotolog, impulsionando assim seu esquecimento.

Na primeira proposição, é reconhecido o descaso da equipe do Fotolog no desenvolvimento de mais recursos para dinamizar as interações, e poder personalizar ainda mais as páginas dos usuários – as formas como os usuários se representam para os outros. Olhando o site hoje, me vem a mesma imagem de quando usava-o em 2004: mesmo layout, poucas alterações quanto a ações possíveis de se fazer em cada post – apenas inserir comentários para quem visualiza um post, e apenas inserir legenda e a foto em um único tamanho para quem faz a postagem.

Já a segunda diz respeito a outros sites de redes sociais virem a suplantar a função do fotolog a medida em que passaram a dispor dos mesmos recursos do site aqui tratado, e quando não mais. Como o Orkut, que ampliou a página de fotos dos usuários: o que até 2006 era para no máximo 12 fotos, é atualmente ilimitado e pode ser organizado por “álbuns”, receber comentários e marcar pessoas nas fotos, além das configurações de privacidade; ou o caso do Flickr, que em certa medida absorveu usuários do fotolog em virtude da quantidade de recursos a disposição dos usuários. Assim, as pessoas continuaram a compartilhar suas fotos, porém em outros ambientes, em muitos casos em mais de um.

Ainda assim, sinto falta de algo que só foi possível ser obtido no Fotolog – pois acredito que cada rede social tem suas particularidades unicamente inerentes a mesma. Havia, lá, uma ambiência que favorecia o estabelecimento de laços fortes, e isto se dava principalmente a partir do compartilhamento de experiências cotidianas, acima de discussões acerca de questões estéticas que a própria foto viesse a suscitar. Ainda que isto possa ter continuado para outros usuários, em outras redes, existia um público específico que se encontrava por lá, que não mais achei nesses dois sites acima usados como exemplo para o enfraquecimento do fotolog. E não acredito que isto tenha ocorrido apenas comigo. Pensando nesse viés, provavelmente um público mais jovem se aproprie de outras redes, da forma como nós – eu meus amigos – fizemos com o fotolog; ou como uma geração anterior a minha se apropriou das listas de discussão.

Então, a resposta mais convincente para o título desse post seria: em vários lugares.

Interação, tecnologias digitais e sociedade

A partir dessa semana passo a colaborar também para o site do Grupo de Pesquisa em Interação, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS), no qual sou membro desde o ano passado. Coordenado pelo professor José Carlos Ribeiro, o GITS é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PósCom), da UFBA. E o site já está no ar há duas semanas, e terá contribuições de todos os seus membros.

Notícias sobre internet, tecnologias contemporâneas e mídias sociais; discussões acerca de cibercultura e processos psicossociais; além dos relatos das reuniões semanais do referido grupo compõem as temáticas abordadas nos posts. É possível também ter acesso às publicações mais recentes de todos – artigos em revistas e anais de eventos e capítulos de livro. Assim, o site é mais um mecanismo de promoção do grupo: busca divulgar os trabalhos desenvolvidos e as discussões correntes.

Pesquisa
Tendo seu início em maio de 2009, o GITS lida, em suas pesquisas e atividades, com temas como colaboração, games e comunidades virtuais, cibersocialidade, compartilhamento de vídeos e imagens, dentre outros. De acordo com a própria descrição no site, tem como interesse principal o estudo de questões relacionadas às mudanças nos processos psicossociais em decorrência do contato com as tecnologias da informação e da comunicação e suas apropriações.

É no grupo em que desenvolvo minha pesquisa do mestrado – junto com outros companheiros do PosCom: o doutorando Thiago Falcão e os mestrandos Ruan Brito, Tarcízio Silva e Maria Alessandra. Demais integrantes são professores da UFBA e outras faculdades de Salvador, como também estudantes de graduação. Ainda, mais informações podem ser obtidas pelo twitter do GITS.

Novo flickr ou nova página de fotos?

Reprodução da nova página do site; mudanças passam a vigorar nas próximas semanas

A partir da próxima semana, o Flickr apresenta a nova página de exibição de fotos disponível para todos os usuários[1]. Em seu blog oficial, anunciou a nova página de fotos, prometendo que “descobrir, compartilhar e organizar suas fotos ficou ainda mais fácil”. A questão que me proponho a refletir aqui: o que há de novo? Fazendo aqui uma análise do que tem de novo, ou diferente, procuro enfocar na página de imagens do usuário – naquela que foi clicada para visualização em tamanho maior, para se ter mais informações da mesma ou para querer interagir: comentando, “favoritando”, inserindo tags etc.

Página de exibição
As fotos agora estão bem maiores. E o tamanho acompanha também a nova resolução do site, que passa a ser 1024×768. A justificativa, segundo o post no blog oficial, é conveniente: “Suas fotos ficam melhores quando elas são grandes”. Tal discurso é corroborado tanto por designers, ao pensar na diagramação de uma mídia impressa ou num site, como por estudiosos do campo da arte e curadores. Imagens maiores causam maior impacto na visualidade das mesmas, para o espectador. Por isto, costuma-se em uma exposição dar ênfase aos quadros com maiores dimensões e nos jornais e sites as notícias “mais importantes” aparecem com fotos em maiores dimensões – ou adotam outra estratégia: as melhores fotos têm privilégio, sendo exibidas em maior dimensão a fim de tomar a atenção do leitor pela qualidade da mesma.

Título da foto, que agora aparece abaixo da mesma. Ou não parece também uma legenda?
Título da foto, que agora aparece abaixo da mesma. Ou não parece também uma legenda?

Quanto ao título e legenda das imagens, o que pode ser chamado de título aparece abaixo destas, antes da legenda. De acordo com a equipe de desenvolvedores, a idéia do título da foto está próximo da descrição da foto é para ressaltar as informações. De fato, percebe-se um maior destaque na foto, em detrimento do título da mesma – que passa a funcionar como um título da legenda a partir de agora; essa minha percepção é reforçada quando se vê fotos em que não há legendas, mas apenas título, como na reprodução desse post abaixo.

Já com relação às demais informações da imagem, percebeu-se uma preocupação em que o usuário a visualizar uma imagem possa ser levado a outras que sejam de seu interesse, quando eles remodelaram o que eles chama de “rolo de filme”: as imagens que aparecem em menor tamanho ao lado direito agora são cinco, e são facilmente acessadas entre as da galeria do usuário, dos álbuns nos quais a imagem pertence e nos grupos em que o usuário postou a mesma. Isto facilita a navegação, e a possibilidade de você ser levado a outras imagens do seu interesse.

No que se refere às ações que apareciam acima da foto – adcionar tags, notas ou pessoas, favoritar – somem os ícones e passam a ser apenas um menu de ações. Os desenvolvedores pretenderam com isto dar ênfase as imagens, evitando perder o foco da atenção com a quantidade de botões que apareciam acima da imagem. Só uma pesquisa mais aprofundada compreenderia se as ações, da forma como apareciam, realmente “atrapalhavam” a visualização. Do ponto de vista do usuário, achei que ficou menos informações expostas de uma só vez, o que é melhor.

Por fim, no que se refere ao novo recurso de visualização em maiores tamanhos, essa função dá uma nova dinâmica, pois é possível que amplie o tamanho da imagem sem necessariamente ir para a página em que se vê todos os tamanhos possíveis da mesma. É interessante pelo fato de não ser mais necessário ficar carregando novas páginas para ter que ver uma imagem ampliada.

Questionando…
Como se percebeu, as alterações foram todas no sentido de dar ainda mais ênfase nas imagens em si. Quero compreender melhor essa estratégia que, a meu ver, não é apenas para aprimorar o layout, mas também naquilo que lanço como hipótese: em virtude de outros sites de redes sociais[2] que agora passam a ter álbuns de fotos com cada vez mais recursos para interagir e navegar, o Flickr investe ainda mais na visualização dos posts dos usuários no sentido de enfatizar a qualidade das fotos em um sentido estético, ao mesmo tempo enfatiza a qualidade dos seus usuários fotógrafos.

Ou seja, as fotos no Flickr são também para apreciadores da fotografia, que valorizam a foto em si e não apenas para aqueles interessados em compartilhar fotos de viagens, festas ou encontros com os amigos, por exemplo. Sem esquecer que estas possam vir a ter uma ênfase também em questões voltadas ao enquadramento, exposição, jogo de luz e sombra, enfoque, dentre outros discursos técnicos ou estéticos que possam ser compartilhados; porém a interação acima de tudo se baseia no interesse dos atores envolvidos: para quem apenas quer compartilhar experiências cotidianas com amigos, essas questões supracitadas são deixadas em segundo plano.

Daí o título desse post vir seguido de uma interrogação, no sentido de tentar refletir de que forma essa atualização opera no sentido de ajudar a alterar a forma como o Flickr se situa nesses sites promotores de redes sociais.


[1] Quem é cliente Pro já pode fazer o “upgrade” para a nova página de fotos
do site.
[2] Principalmente os sites de relacionamento e aqueles que servem como
auxiliar ao twitter, para se poder postar fotos e enviar tweets das mesmas.