Imagem nas mídias sociais

Hoje é o dia mundial da fotografia! Nessa série de ações que vários sites e fotógrafos fizeram na lembrança da data comemorativa, esta imagem abaixo me chamou atenção, pela relação com o que venho fazendo na pós-graduação. Trata-se de um infográfico no qual apresenta os principais serviços de compartilhamento de imagens utilizados pelos brasileiros na internet. Elaborado pela agência Mentes Digitais.

Assim, trata do início, com o Fotolog, e vai consequentemente apontar como essa relação com a fotografia passa a ter um componente importante no processo, que são as câmeras nos dispositivos móveis. Prova disso é o sucesso do Instagram, que passa a ser um ator fundamental para o entendimento dessa prática de compartilhamento dos últimos dois anos, tendo em vista a aceitação do público e o desenvolvimento dos dispositivos – que passam a diminuir consideravelmente o tempo entre o ato fotográfico e o ato de compartilhar com a rede social do usuário.

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Onde estão meus amigos do Fotolog?

Página inicial do Fotolog: poucas mudanças com o passar dos anos, no geral

Em uma primeira análise, a resposta para a pergunta do título desse post seria: em nenhum lugar. Isto porque, o Fotolog, que num tempo longínquo para esse ambiente online – no início e até meados dessa década – era um dos sites de redes sociais mais populares no Brasil, passou a perder força a partir de 2005 e atualmente é utilizado por um número bastante inferior: é apenas o 416º e o 75º no Brasil, de acordo com a medida de traffic rank do Alexa.

Em 2004, no seu período mais expressivo, o Brasil tinha mais de 200 mil fotologs, sendo à época o país com maior número de fotologs cadastrados no sistema. Já no início de 2006, o site retirou as estatísticas do ar – provavelmente devido a perda no número de usuários, se comparado proporcionalmente a outros sites que cresceram. No próprio site, as estatísticas apresentadas são de 2008, e não fazem mais referências a comparações com outros sites promotores de redes sociais no Brasil.

Por que isto aconteceu?

Fazendo uma análise mais considerável, pensei nesse post ao começar a vasculhar minha antiga conta no site, e relembrar um pouco os momentos passados, e como estes foram bons o suficiente para achar que não poderiam ter acabado. Daí, passei a procurar por motivos que tenham ocasionado um desinteresse pelo site por parte dos brasileiros, em geral. Penso em dois motivos, que inclusive podem caminhar juntos: (1) o fotolog possui muito menos recursos de personalização e interação se comparado a outros sites e (2) outros sites, a exemplo dos sites de relacionamentos como Orkut e Facebook, passaram a adotar recursos de compartilhamento de fotografias semelhantes aos do fotolog, impulsionando assim seu esquecimento.

Na primeira proposição, é reconhecido o descaso da equipe do Fotolog no desenvolvimento de mais recursos para dinamizar as interações, e poder personalizar ainda mais as páginas dos usuários – as formas como os usuários se representam para os outros. Olhando o site hoje, me vem a mesma imagem de quando usava-o em 2004: mesmo layout, poucas alterações quanto a ações possíveis de se fazer em cada post – apenas inserir comentários para quem visualiza um post, e apenas inserir legenda e a foto em um único tamanho para quem faz a postagem.

Já a segunda diz respeito a outros sites de redes sociais virem a suplantar a função do fotolog a medida em que passaram a dispor dos mesmos recursos do site aqui tratado, e quando não mais. Como o Orkut, que ampliou a página de fotos dos usuários: o que até 2006 era para no máximo 12 fotos, é atualmente ilimitado e pode ser organizado por “álbuns”, receber comentários e marcar pessoas nas fotos, além das configurações de privacidade; ou o caso do Flickr, que em certa medida absorveu usuários do fotolog em virtude da quantidade de recursos a disposição dos usuários. Assim, as pessoas continuaram a compartilhar suas fotos, porém em outros ambientes, em muitos casos em mais de um.

Ainda assim, sinto falta de algo que só foi possível ser obtido no Fotolog – pois acredito que cada rede social tem suas particularidades unicamente inerentes a mesma. Havia, lá, uma ambiência que favorecia o estabelecimento de laços fortes, e isto se dava principalmente a partir do compartilhamento de experiências cotidianas, acima de discussões acerca de questões estéticas que a própria foto viesse a suscitar. Ainda que isto possa ter continuado para outros usuários, em outras redes, existia um público específico que se encontrava por lá, que não mais achei nesses dois sites acima usados como exemplo para o enfraquecimento do fotolog. E não acredito que isto tenha ocorrido apenas comigo. Pensando nesse viés, provavelmente um público mais jovem se aproprie de outras redes, da forma como nós – eu meus amigos – fizemos com o fotolog; ou como uma geração anterior a minha se apropriou das listas de discussão.

Então, a resposta mais convincente para o título desse post seria: em vários lugares.

Marimoon, fotolog e pós-feminismo

Em pose de coelhinha. Fonte: <fotolog.com.br/marimoon/87002623>

Nesse sábado (12), estarei apresentando um trabalho no Intercom Nordeste 2010, sobre a usuária do fotolog MariMoon, e como ela poderia ser um exemplo do que Angela McRobbie vem chamando de pós-feminismo. Desse modo, argumento como um novo regime de gênero, baseado numa negação de antigas bandeiras defendidas pelo feminismo surgido nos anos 1960, na auto-afirmação como mulher desprovida de qualquer discurso político coletivo, representa uma parcela dos usuários da internet – nesses sites de compartilhamento de conteúdos.

McRobbie, em seu livro The Aftermath of Feminism: Gender, Culture and Social Change, sugere que, com a ajuda das bandeiras de liberdade e escolha que agora estão conectadas com as jovens, o feminismo parece ser redundante. O pós-feminismo atua para instalar todo um repertório de novas significações que enfatizam que o feminismo não é mais necessário – ou, ainda, que é uma força perdida. Há um tom individualista nos problemas, dúvidas e anseios das mulheres, quando se nega uma busca direta por um bem coletivo – mas sim uma busca que se dá de forma indireta, não-intencional, onde o bem-estar de um indivíduo pode ocasionar melhorias para um conjunto.

Dessa forma, percebe-se um deslocamento do feminismo como um movimento político. Pois Para ser uma jovem, é necessário este tipo de denúncia ritualística que nega o feminismo como uma estratégia de ação; inclui o feminismo no passado e o marca como pertencente a outra geração; logo, está “ultrapassado”.

E o que isso tem a ver com MariMoon? A dona do fotolog mais popular do Brasil, com 60 mil visitantes por semana, tem um discurso baseado na auto-afirmação, de uma necessidade sua de se representar perante a uma rede de contatos/fãs. Na minha análise de sua página, as discussões giraram em torno da cor do cabelo ou da beleza de MariMoon.

Suas fotos Fotos tem um forte apelo ao corpo. Para McRobbie, tal comportamento endossa a irônica “normalização” da pornografia. Ou seja, se auto-afirmando como mulher, sem recalques de transparecer sua sensualidade, sua sexualidade, ela quebra tabus e indiretamente proporciona conquistas para o público jovem que a admira. E isto se apresenta como uma prova de sofisticação e de se parecer agradável a um público jovem, na qual ela se comunica em seu fotolog; como uma busca por ser “cool”. Pois os comentários se repetem em elogios à sua beleza e ousadia, em todos os posts.

A mulher admirada nessa rede assume suas ansiedades, sua vida particular; evita qualquer representação erótica de si e aproveita sua sexualidade sem medo, longe dos padrões sexistas tradicionais. Daí residem as características de gênero naquilo que McRobbie conceitua do que pode ser o momento contemporâneo da representação da mulher. Tendo se inserido na internet, a mulher nega essa competência atribuída pelo feminismo em se representar enquanto ser político, histórico. Negar isto torna-se essencial, ainda que propostas de direitos de expressão da mulher possam ser conquistados através de ações de usuárias inseridas nessa cibercultura de compartilhamento de fotografias.