Evento discutirá representação, memória e identidades na fotografia

Recebi nessa semana a convocatória para o V Theoria, evento a ser realizado em agosto, no Museu do Homem do Nordeste, em Recife; pela primeira vez ocorrerá um simpósio em paralelo acerca do futuro do passado da fotografia. A convocatória foi enviada a um mês do dia limite de envio de trabalho. Aliado a participação no evento, também ocorrerá a publicação de uma edição da revista Ícone sobre o mesmo tema, com uma seleção dos trabalhos trabalhos submetidos ao Theoria.

Abaixo, reproduzo a chamada:

O Museu do Homem do Nordeste, MuHNE, vinculado à Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ, está preparando para agosto de 2013 a V edição do THEORIA. O evento, que acontece desde 2009, é dedicado à reflexão e pensamento acerca da fotografia como protagonista da prospecção e construção social da imagem. Para este ano, o tema geral do encontro será futuro do passado do Nordeste, com a presença de nomes e autores de referência nacionais como principais conferencistas de modo a ancorar o encontro. (Em breve, serão confirmados os nomes).

Em adição, o V THEORIA inaugura uma parceria e um formato inéditos: juntamente com o Programa de pós-Graduação em Comunicação da UFPE, PPGCOM; organiza a convocatória da Revista Ícone No. 15. Editada pelo PPGCOM desde 1995, foi reformulada recentemente, sendo agora totalmente voltada para o campo do visual. A parceria do MuHNE-FUNDAJ/ PPGCOM – UFPE, Será, no caso, um processo casado à submissão de trabalhos para o V THEORIA concomitantemente aos painéis, projeções de portfólios e curso que compõem o encontro.

O núcleo temático para a convocatória da Ícone é Futuro do passado: representação, memória e identidades na fotografia. Assim, os trabalhos selecionados para o congresso, quando do acontecimento do mesmo, já estarão publicados no novo número, a ser editado até agosto de 2013.

Futuro do passado é a provocação inicial, no sentido de se debruçar sobre eixos de permanência assentes no debate histórico e epistemológico da fotografia diante do dilema que contrapõe tanto a continuidade e elementos residuais de práticas e saberes, como as rupturas e emergências que o regime visual contemporâneo, ora recuperando e potencializando modelos, ora superando-os. A premissa é que deste choque nascem condicionamentos diretamente implicados nas elaborações das formas de representação, da construção da memória e de identidades justapostas ao processo fotográfico.

Os eixos de estímulo desta convocatória THEORIA/ÍCONE buscam estabelecer um debate gregário acerca das apropriações da fotografia, seja como meio próprio, ou em dialogia com outras interfaces expressivas, documentais ou representacionais.

1 – Quais tipos de processos/práticas têm se consolidado como resultado e que eram inexistentes?

2 – O que reúne/distingue esses diferentes processos?

3 – Quais as condições de criação de um discurso visual acerca de um futuro da fotografia em diálogo com seu passado?

4 – Em que sentido essa fotografia permite introduzir inovações, atenuar, superar, ou ainda reforçar articulações que elaboram a triade de representações/ memória/ idendidades?

Os trabalhos submetidos devem abordar aspectos teóricos e/ ou estudos empíricos, podendo ter um caráter descritivo, exploratório ou ensaísta. Demais trabalhos, fora do tema da convocatória podem ser enviados, no caso de aprovados, serão publicados na sessão artigos.

A submissão de trabalhos é exclusivamente online pelo sistema SEER utilizado pela Ícone. Acesse: http://www.icone-ppgcom.com.br/ e siga os passos. Os professores José Afonso da Silva Junior e Nina Velasco (PPGCOM-UFPE) são os editores dessa edição.

Calendário
Submissão de artigos: até  20 de Junho de 2013.
Pareceres: até  20 de Julho de 2013.
Previsão de publicação: até  20 de Agosto de 2013.
Anúncios

Humanos e não-humanos no compartilhamento de fotografias

Venho estudando, por esses dias, a emergência de humanos e não-humanos em redes de compartilhamento de fotografias. Para tanto, utilizo a Teoria Ator-Rede para a compreensão da dinâmica das interações em um post no site Flickr.

Acredito que compreender a dinâmica das redes sociais requer uma análise não apenas nos processos de interação decorrentes de dois ou mais indivíduos. É necessária a atenção para a presença de atores não-humanos também intervenientes no referido processo. Trazendo a discussão para internet, é preciso se dar conta da presença de variáveis técnicas específicas para cada ambiente interativo, nos quais produzem mecanismos de interação que os tornam únicos, sendo assim difícil de transportar as mesmas dinâmicas de um ambiente a outro.

Essas variáveis técnicas são fornecidas pela equipe desenvolvedora dos sites, numa busca constante por promover mecanismos para o estabelecimento de estratégias de representação e de interação entre usuários – ainda que nem sempre alterações e inserções de novas ferramentas no sistema venham a ser bem recebidas pelo público. E a Teoria Ator-Rede pode ajudar na busca por compreender como actantes oriundos de diversas situações – humanos ou não – se inscrevem em um determinado processo de modo a criar redes heterogêneas.

Redes heterogêneas
A Teoria Ator-Rede pesquisa os processos de interação na sociedade, mas sem ignorar o ambiente em que se dá a situação e a presença de outros actantes – no caso, os não-humanos –, os quais também fazem parte do processo, sem a existência de uma hierarquia. Heterogeneidade é um aspecto central de uma rede estável. Quanto mais diversos elementos estão inter-relacionados, mais complexa e estável a rede se torna.

Essa seria o que John Law[1] considerou como uma rede heterogênea. Ou seja, Law diz que o conhecimento adquirido pelos actantes humanos é incorporado em uma variedade de formas materiais. Em uma rede desse tipo, cada elemento é mantido no lugar através de um conjunto heterogêneo de vínculos com outros actantes; a fim de desvincular múltiplos actantes determinados, múltiplas conexões têm de ser desatadas.

A resposta da Teoria Ator-Rede sobre de que modo essas redes são concebidas é de que são o produto final de um trabalho de informações e partes diversas: tubos de ensaio, organismos, mãos hábeis, microscópios eletrônicos, cientistas, artigos, terminais de computador, dentre outros; estes funcionam isoladamente, mas são justapostos numa rede. Sobre isto, assim como nas interações face-a-face, existe uma variável técnica que opera no sentido de possibilitar certas condições para o estabelecimento de interações, de laços de um actante humano na rede.

Este, então, é um dos problemas de pesquisa da Teoria Ator-Rede: a preocupação com a forma em que actantes e organizações mobilizam, justapõem e unem os pedaços dos quais são compostos; como eles às vezes são capazes de impedir os pedaços de seguir suas próprias inclinações e formas de devir; e como conseguem, a partir disto, virar uma rede de um conjunto heterogêneo de pedaços, cada um com suas próprias inclinações.

Flickr
Se pensada a questão a partir do que preceitua a Teoria Ator-Rede, todos os recursos presentes num post, a promover interações e representações, podem ser compreendidos como os actantes, nos quais podem ser gerenciados pelos próprios usuários postam a foto, por aqueles que interagem ou pelo próprio sistema. Estes aparecem de modo a fomentar as interações possíveis a partir do que uma fotografia pode representar para os indivíduos e aos demais.

Indicação (em vermelho) de actantes presentes em um post do Flickr

As interações feitas pelos usuários em um dado post são fundamentais no rumo em que uma dada foto pode ser compreendida pelos demais usuários; ou seja, o processo de representação de um usuário só se completa a partir da interação com os demais. Assim como sugere a Teoria Ator-Rede, a essência é a ação: o momento em que actantes se dão ao encontro. Por exemplo, um comentário em uma dada foto pode alterar toda a ordem de um discurso presente em um post; ainda, pode até fazer com que a foto tenha menos importância para aqueles que interagem no mesmo, para ser assim tomado como foco de atenção o que foi comentado pelos usuários.

Trabalhando em conjunto, os actantes presentes no Flickr possibilitam a formação de redes heterogêneas, pois é no conjunto das ações desenvolvidas que se dá a emergência de toda uma dinâmica das interações no ambiente do referido site. E é isto que possibilitará o estabelecimento de laços nessas redes, de acordo com os interesses de cada um.

Acredita-se que a Teoria Ator-Rede possa inclusive ser importante para questionar a concepção tradicional que se tem de redes sociais na internet, tendo em visto o modo como se valoriza a presença de outros actantes exteriores ao próprio indivíduo: aparecem como apenas um suporte, um meio para a interação entre humanos; não há a devida compreensão da simetria entre humanos e não-humanos, dependentes entre si.

É isto, e mais um muito, que posteriormente vou trabalhar.


[1] Artigo Notes on the theory of the actor­network: ordering, strategy and heterogeneity (1992). Vale também salientar que o termo actante é utilizado pela Teoria Ator-Rede para designar aqueles que agem em uma determinada situação.

A Teoria Ator-Rede pesquisa os processos de interação na sociedade, mas sem ignorar o ambiente em que se dá a situação e a presença de outros actantes[1] – no caso, os não-humanos –, os quais também fazem parte do processo, sem a existência de uma hierarquia. Heterogeneidade é um aspecto central de uma rede estável. Quanto mais diversos elementos estão inter-relacionados, mais complexa e estável a rede se torna.


[1] O termo é utilizado pela Teoria Ator-Rede para designer aqueles que agem emu ma determinada situação.

Mídias sociais e representação: alguns apontamentos temporais

Trazendo essa para o campo teórico da comunicação, Scott Lash, em seu livro Critique of information, faz uma distinção entre os meios de comunicação de massa e aqueles anteriores a estes. Para ele, a diferença se dá principalmente numa dimensão temporal.

Os meios massivos operam, via de regra, por meio da apresentação: apenas apresentando a informação – ainda que não possa ser ignorado o juízo de valor do repórter. Há obviamente convenções e protocolos para a produção da informação: se é um telejornal ou um jornal diário, por exemplo. Porém, isto são protocolos, métodos para apresentação, e não representação. Eles compreendem um enquadramento da apresentação dos assuntos, a depender do veículo; e tratam de uma seleção de sinais cujos espectadores recebem. E a duração de cada meio concebido – um telejornal, um jornal diário, um programa de rádio – é até a próxima edição desse meio. Ou seja, após um tempo, a informação é ressignificada apenas pelos desdobramentos em edições posteriores dos veículos, e não por outros atores (recepção). A não ser que estes influenciem diretamente o curso do próprio desenrolar dos fatos…

Já com relações às mídias anteriores a estas, opera-se por meio da representação: acadêmicos, pintores, atores, escritores, dentre outros, trabalham em uma duração do tempo maior. Um livro pode ter influência por anos, ser discutido décadas depois, ou pode demorar anos para ser escrito – uma escala de tempo diferente da de um jornalista. Concerne ao espectador sempre ressignificar os discursos: contrapondo, acrescentando ou reformulando-os.

Se levarmos em conta a possibilidade das mídias sociais, é possível refletir que estes, assim como as mídias anteriores às massivas, operam por meio da representação, pois os usuários sempre combinam as informações recebidas com as que possui, e trabalham na produção de sentido diferente dos padrões de broadcasting[1]. Comparado aos meios massivos, o conteúdo gerado pelos usuários nas mídias sociais não requer a velocidade das primeiras para a aproximação do usuário com o conteúdo produzido pelos demais. Pois a informação estará sempre presente, acessível para aqueles interessados em interagir com esta. Ainda que atualizações venham a ter maior destaque à posts mais antigos, é possível ainda interagir com estes; além do que, não existe a urgência pelo consumo da informação postada.

Ainda, cada novo conteúdo inserido em um mesmo post, alterará o modo como a percepção do todo operará na representação. Tomando como análise um post no site Flickr, cada novo comentário terá a potência de uma nova informação presente no mesmo conteúdo. Portanto, novas possibilidades de ressignificação da mesma foto podem ser construídas de acordo com a recepção que um dado conteúdo inserido tiver sobre os usuários interagem com essa foto. Como exemplo, no post da usuária Dilma Rousseff (11 de abril) na qual ela registra o uso do Twitter pela primeira vez.

Post da usuária Dilma Roussef, candidata nessas eleições. Fonte: http://www.flickr.com/photos/dilma-rousseff/4512632528/

Post da usuária Dilma Rousseff, candidata a presidente; comentários ressignificam o discurso.

É possível perceber, no post, que Dilma procura se representar como alguém iniciando uma “vida” de usuária de plataformas de redes sociais na internet, ao mesmo tempo que revela ser a própria quem atualiza, e não uma assessoria. Sem esquecer o fato dela ser candidata nas eleições para presidente desse ano, um usuário do Flickr comentou no post sobre o fato de que, por só estar nesse ano fazendo uso dessas mídias sociais, toda sua participação se configura como mais uma “ação eleitoreira”, e não uma vontade dela em interagir com os usuários por outros moitvos. Daí, a discussão no post foi direcionada para essa questão, e vários usuários tentaram defendê-la argumentando que Dilma não é “oportunista”, ou que sempre foi aberta a ouvir as pessoas, enquanto, por outro lado, usuários chamaram-na de “mentirosa”, que estaria “posando de conectada” – dando a entender que não é ela quem mantém suas contas no Twitter e Flickr.

Nesse exemplo, percebe-se uma atitude reflexiva: tanto por parte de quem emite mensagem – configurada através de estratégias de gerenciamento da expressão emitida – como por parte de quem recebe – aqueles que recombinaram o discurso inicial centrando numa discussão acerca de comentários surgidos à foto, ressignificando assim de acordo com as discussões surgidas nos comentários ao post.

Numa dimensão temporal, as mídias sociais têm a maior duração também devido ao fato que não operam necessariamente baseadas na velocidade das informações, que possam manter os espectadores abastecidos por desenrolares de um dado assunto na agenda da mídia – a exemplo do post supracitado. Não se pretende, aqui, julgar que há um movimento em direção a resgatar o poder de representação da mídia, mas sim uma conseqüência das possibilidades oferecidas com a web 2.0.


[1] É necessário uma ressalva, aqui, quanto ao impacto de uma notícia em um determinado indivíduo, que pode criar um determinado quadro sobre um dado assunto e/ou influenciar no seu comportamento perante ao mesmo – ainda que isto possa ocorrer de forma inconsciente. Sem esquecer também do poder de uma determinada notícia se fazer num conjunto: a inserção de um quadro na agenda de um veículo sobre um determinado tema pode formar a opinião dos seus leitores, ouvintes ou telespectadores.

Marimoon, fotolog e pós-feminismo

Em pose de coelhinha. Fonte: <fotolog.com.br/marimoon/87002623>

Nesse sábado (12), estarei apresentando um trabalho no Intercom Nordeste 2010, sobre a usuária do fotolog MariMoon, e como ela poderia ser um exemplo do que Angela McRobbie vem chamando de pós-feminismo. Desse modo, argumento como um novo regime de gênero, baseado numa negação de antigas bandeiras defendidas pelo feminismo surgido nos anos 1960, na auto-afirmação como mulher desprovida de qualquer discurso político coletivo, representa uma parcela dos usuários da internet – nesses sites de compartilhamento de conteúdos.

McRobbie, em seu livro The Aftermath of Feminism: Gender, Culture and Social Change, sugere que, com a ajuda das bandeiras de liberdade e escolha que agora estão conectadas com as jovens, o feminismo parece ser redundante. O pós-feminismo atua para instalar todo um repertório de novas significações que enfatizam que o feminismo não é mais necessário – ou, ainda, que é uma força perdida. Há um tom individualista nos problemas, dúvidas e anseios das mulheres, quando se nega uma busca direta por um bem coletivo – mas sim uma busca que se dá de forma indireta, não-intencional, onde o bem-estar de um indivíduo pode ocasionar melhorias para um conjunto.

Dessa forma, percebe-se um deslocamento do feminismo como um movimento político. Pois Para ser uma jovem, é necessário este tipo de denúncia ritualística que nega o feminismo como uma estratégia de ação; inclui o feminismo no passado e o marca como pertencente a outra geração; logo, está “ultrapassado”.

E o que isso tem a ver com MariMoon? A dona do fotolog mais popular do Brasil, com 60 mil visitantes por semana, tem um discurso baseado na auto-afirmação, de uma necessidade sua de se representar perante a uma rede de contatos/fãs. Na minha análise de sua página, as discussões giraram em torno da cor do cabelo ou da beleza de MariMoon.

Suas fotos Fotos tem um forte apelo ao corpo. Para McRobbie, tal comportamento endossa a irônica “normalização” da pornografia. Ou seja, se auto-afirmando como mulher, sem recalques de transparecer sua sensualidade, sua sexualidade, ela quebra tabus e indiretamente proporciona conquistas para o público jovem que a admira. E isto se apresenta como uma prova de sofisticação e de se parecer agradável a um público jovem, na qual ela se comunica em seu fotolog; como uma busca por ser “cool”. Pois os comentários se repetem em elogios à sua beleza e ousadia, em todos os posts.

A mulher admirada nessa rede assume suas ansiedades, sua vida particular; evita qualquer representação erótica de si e aproveita sua sexualidade sem medo, longe dos padrões sexistas tradicionais. Daí residem as características de gênero naquilo que McRobbie conceitua do que pode ser o momento contemporâneo da representação da mulher. Tendo se inserido na internet, a mulher nega essa competência atribuída pelo feminismo em se representar enquanto ser político, histórico. Negar isto torna-se essencial, ainda que propostas de direitos de expressão da mulher possam ser conquistados através de ações de usuárias inseridas nessa cibercultura de compartilhamento de fotografias.