Novo flickr ou nova página de fotos?

Reprodução da nova página do site; mudanças passam a vigorar nas próximas semanas

A partir da próxima semana, o Flickr apresenta a nova página de exibição de fotos disponível para todos os usuários[1]. Em seu blog oficial, anunciou a nova página de fotos, prometendo que “descobrir, compartilhar e organizar suas fotos ficou ainda mais fácil”. A questão que me proponho a refletir aqui: o que há de novo? Fazendo aqui uma análise do que tem de novo, ou diferente, procuro enfocar na página de imagens do usuário – naquela que foi clicada para visualização em tamanho maior, para se ter mais informações da mesma ou para querer interagir: comentando, “favoritando”, inserindo tags etc.

Página de exibição
As fotos agora estão bem maiores. E o tamanho acompanha também a nova resolução do site, que passa a ser 1024×768. A justificativa, segundo o post no blog oficial, é conveniente: “Suas fotos ficam melhores quando elas são grandes”. Tal discurso é corroborado tanto por designers, ao pensar na diagramação de uma mídia impressa ou num site, como por estudiosos do campo da arte e curadores. Imagens maiores causam maior impacto na visualidade das mesmas, para o espectador. Por isto, costuma-se em uma exposição dar ênfase aos quadros com maiores dimensões e nos jornais e sites as notícias “mais importantes” aparecem com fotos em maiores dimensões – ou adotam outra estratégia: as melhores fotos têm privilégio, sendo exibidas em maior dimensão a fim de tomar a atenção do leitor pela qualidade da mesma.

Título da foto, que agora aparece abaixo da mesma. Ou não parece também uma legenda?
Título da foto, que agora aparece abaixo da mesma. Ou não parece também uma legenda?

Quanto ao título e legenda das imagens, o que pode ser chamado de título aparece abaixo destas, antes da legenda. De acordo com a equipe de desenvolvedores, a idéia do título da foto está próximo da descrição da foto é para ressaltar as informações. De fato, percebe-se um maior destaque na foto, em detrimento do título da mesma – que passa a funcionar como um título da legenda a partir de agora; essa minha percepção é reforçada quando se vê fotos em que não há legendas, mas apenas título, como na reprodução desse post abaixo.

Já com relação às demais informações da imagem, percebeu-se uma preocupação em que o usuário a visualizar uma imagem possa ser levado a outras que sejam de seu interesse, quando eles remodelaram o que eles chama de “rolo de filme”: as imagens que aparecem em menor tamanho ao lado direito agora são cinco, e são facilmente acessadas entre as da galeria do usuário, dos álbuns nos quais a imagem pertence e nos grupos em que o usuário postou a mesma. Isto facilita a navegação, e a possibilidade de você ser levado a outras imagens do seu interesse.

No que se refere às ações que apareciam acima da foto – adcionar tags, notas ou pessoas, favoritar – somem os ícones e passam a ser apenas um menu de ações. Os desenvolvedores pretenderam com isto dar ênfase as imagens, evitando perder o foco da atenção com a quantidade de botões que apareciam acima da imagem. Só uma pesquisa mais aprofundada compreenderia se as ações, da forma como apareciam, realmente “atrapalhavam” a visualização. Do ponto de vista do usuário, achei que ficou menos informações expostas de uma só vez, o que é melhor.

Por fim, no que se refere ao novo recurso de visualização em maiores tamanhos, essa função dá uma nova dinâmica, pois é possível que amplie o tamanho da imagem sem necessariamente ir para a página em que se vê todos os tamanhos possíveis da mesma. É interessante pelo fato de não ser mais necessário ficar carregando novas páginas para ter que ver uma imagem ampliada.

Questionando…
Como se percebeu, as alterações foram todas no sentido de dar ainda mais ênfase nas imagens em si. Quero compreender melhor essa estratégia que, a meu ver, não é apenas para aprimorar o layout, mas também naquilo que lanço como hipótese: em virtude de outros sites de redes sociais[2] que agora passam a ter álbuns de fotos com cada vez mais recursos para interagir e navegar, o Flickr investe ainda mais na visualização dos posts dos usuários no sentido de enfatizar a qualidade das fotos em um sentido estético, ao mesmo tempo enfatiza a qualidade dos seus usuários fotógrafos.

Ou seja, as fotos no Flickr são também para apreciadores da fotografia, que valorizam a foto em si e não apenas para aqueles interessados em compartilhar fotos de viagens, festas ou encontros com os amigos, por exemplo. Sem esquecer que estas possam vir a ter uma ênfase também em questões voltadas ao enquadramento, exposição, jogo de luz e sombra, enfoque, dentre outros discursos técnicos ou estéticos que possam ser compartilhados; porém a interação acima de tudo se baseia no interesse dos atores envolvidos: para quem apenas quer compartilhar experiências cotidianas com amigos, essas questões supracitadas são deixadas em segundo plano.

Daí o título desse post vir seguido de uma interrogação, no sentido de tentar refletir de que forma essa atualização opera no sentido de ajudar a alterar a forma como o Flickr se situa nesses sites promotores de redes sociais.


[1] Quem é cliente Pro já pode fazer o “upgrade” para a nova página de fotos
do site.
[2] Principalmente os sites de relacionamento e aqueles que servem como
auxiliar ao twitter, para se poder postar fotos e enviar tweets das mesmas.
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Fotografia e internet: algumas passagens e tensões

Vive-se um momento na história da fotografia em que a multiplicação da problemática dos modos de produção e dos seus suportes de expressão, introduzidos por tecnologias que foram surgindo – câmeras, processos de revelação, meios digitais, computadores e em seguida a internet –, exigem novas leituras desse fazer fotográfico. Isto porque, essas tecnologias podem convergir várias mídias e funções.

Considerando o que acima expus, Arlindo Machado, em seu livro Arte e Mídia, defende que em lugar de pensar os meios individualmente, o que começa a interessar agora são as passagens que se operam entre as mídias. Pois essas passagens permitiriam compreender melhor tensões e ambigüidades que se operam atualmente entre: (1) o movimento e a imobilidade, (2) entre o analógico e o digital, (3) o figurativo e o abstrato, (4) o atual e o virtual.

Buscando interpretar essas passagens, no primeiro caso quando a obra não está presa apenas a um lugar, podendo estar presente em vários pontos da rede, simultaneamente; uma foto no Flickr pode, com isso, ter um alcance cujas barreiras de tempo e espaço são diminuídas: não há mais a necessidade do local (espaço) e a instantaneidade de sua propagação (tempo). No segundo, quando observam-se as possibilidades de apresentação de uma obra fotográfica que é agora digital, em que o processo físico-químico é substituído pelo registro em bits, o que dá ao fotógrafo a possibilidade de propagar na internet e manipular através de softwares de edição de imagens. No terceiro quesito, quando percebe-se uma fronteira não mais tão clara entre o que seria figurativo ou abstrato na produção fotográfica, em que o artista, ao explorar os recursos de sua câmera e de pós-produção (edição), altera as fronteiras destinadas unicamente a pintura ou a fotografia: tanto podem ser interpretados como figurativo ou abstrato a imagem finalizada. Por fim, discute-se o atual e o virtual ao pensar na fotografia apresentada nas redes sociais de compartilhamento na internet e na própria imagem virtual, aquela que se dá como potência do atual, como já defendeu Pierre Lévy.

Para Machado, pensar nessas tensões não se trata apenas de uma estratégia para compreender as novas imagens; essa seria a maneira como a indústria cultural agora funciona. Pois esse momento provocou a automatização da imagem, tendo seu início no século XIX com as primeiras câmeras, e contribuindo para a consolidação de uma indústria cultural; as ditas “belas artes” passam a não ser mais destinadas exclusivamente a poucos apreciadores. Se considerarmos aqui a fotografia digital e os sites que possibilitam a criação de redes na internet, é possível dizer que a produção e conseqüente propagação assumem outras proporções. Não se trata necessariamente de uma “nova fase” na fotografia, com relação a sua linguagem; mas sim de uma multiplicação na forma em que as imagens podem ser apresentadas (e representadas) ao público – amador ou profissional.

Essas discussões fazem parte do que venho me interessando. Espero poder contribuir com as pesquisas sobre fotografias quanto ao seu compartilhamento na web, no referente aos seus suportes de expressão; aprofundando questões relacionadas aos processos psicossociais em decorrência do contato com as tecnologias da comunicação e suas apropriações.

Marimoon, fotolog e pós-feminismo

Em pose de coelhinha. Fonte: <fotolog.com.br/marimoon/87002623>

Nesse sábado (12), estarei apresentando um trabalho no Intercom Nordeste 2010, sobre a usuária do fotolog MariMoon, e como ela poderia ser um exemplo do que Angela McRobbie vem chamando de pós-feminismo. Desse modo, argumento como um novo regime de gênero, baseado numa negação de antigas bandeiras defendidas pelo feminismo surgido nos anos 1960, na auto-afirmação como mulher desprovida de qualquer discurso político coletivo, representa uma parcela dos usuários da internet – nesses sites de compartilhamento de conteúdos.

McRobbie, em seu livro The Aftermath of Feminism: Gender, Culture and Social Change, sugere que, com a ajuda das bandeiras de liberdade e escolha que agora estão conectadas com as jovens, o feminismo parece ser redundante. O pós-feminismo atua para instalar todo um repertório de novas significações que enfatizam que o feminismo não é mais necessário – ou, ainda, que é uma força perdida. Há um tom individualista nos problemas, dúvidas e anseios das mulheres, quando se nega uma busca direta por um bem coletivo – mas sim uma busca que se dá de forma indireta, não-intencional, onde o bem-estar de um indivíduo pode ocasionar melhorias para um conjunto.

Dessa forma, percebe-se um deslocamento do feminismo como um movimento político. Pois Para ser uma jovem, é necessário este tipo de denúncia ritualística que nega o feminismo como uma estratégia de ação; inclui o feminismo no passado e o marca como pertencente a outra geração; logo, está “ultrapassado”.

E o que isso tem a ver com MariMoon? A dona do fotolog mais popular do Brasil, com 60 mil visitantes por semana, tem um discurso baseado na auto-afirmação, de uma necessidade sua de se representar perante a uma rede de contatos/fãs. Na minha análise de sua página, as discussões giraram em torno da cor do cabelo ou da beleza de MariMoon.

Suas fotos Fotos tem um forte apelo ao corpo. Para McRobbie, tal comportamento endossa a irônica “normalização” da pornografia. Ou seja, se auto-afirmando como mulher, sem recalques de transparecer sua sensualidade, sua sexualidade, ela quebra tabus e indiretamente proporciona conquistas para o público jovem que a admira. E isto se apresenta como uma prova de sofisticação e de se parecer agradável a um público jovem, na qual ela se comunica em seu fotolog; como uma busca por ser “cool”. Pois os comentários se repetem em elogios à sua beleza e ousadia, em todos os posts.

A mulher admirada nessa rede assume suas ansiedades, sua vida particular; evita qualquer representação erótica de si e aproveita sua sexualidade sem medo, longe dos padrões sexistas tradicionais. Daí residem as características de gênero naquilo que McRobbie conceitua do que pode ser o momento contemporâneo da representação da mulher. Tendo se inserido na internet, a mulher nega essa competência atribuída pelo feminismo em se representar enquanto ser político, histórico. Negar isto torna-se essencial, ainda que propostas de direitos de expressão da mulher possam ser conquistados através de ações de usuárias inseridas nessa cibercultura de compartilhamento de fotografias.

Geotaggers’ World Atlas

Londres, no Geotaggers' World Atlas (Fonte: http://www.flickr.com/photos/walkingsf/4621770253/)

O fotógrafo Eric Fischer criou mapas impressionantes dos lugares que as imagens são tiradas em cinqüenta cidades no mundo, em função da densidade de fotografias tiradas nas mesmas. As localizações das fotos vêm das APIs públicas do Picasa e do Flickr. Os scripts gerados PostScript que depois foram convertidos em JPEGs, como se observa na imagem acima.

Interessante perceber como os mapas do Geotaggers’ World Atlas estão ordenados pelo número de fotos tiradas no cluster central de cada um – provavelmente, regiões da cidade com maior visitação ou pontos turísticos. E Nova York está no topo da lista.

Dessa forma, Fischer comenta sobre o projeto na sua página do Flickr que é um pouco “injusto” para cidades policêntricas como Tóquio e Los Angeles, que tem colocação inferior a outras por existir “lacunas” onde ninguém fez fotos. Se as anotações realizadas através da quantidade de fotografias com geo-localização tomam como base os clusters, é possível que uma cidade como Tóquio possua muito mais fotos, em toda a sua cidade, do que Salvador, por exemplo, e essa última venha a ter um mapa melhor distribuído por fotos; porém, o sistema faz uma média a depender do lugar, dá um parâmetro a partir das regiões com mais fotos na cidade em questão, apenas.

Percebe-se nesse projeto como as cidades estão dispostas como grandes redes, em que é possível compreender como as fotografias se posicionam tendo como base lugares mais interessantes – os hubs. Fazendo uma analogia às redes, da mesma forma os indivíduos se agrupam em torno de hubs, as fotografias se concentram torno destes, que se apresentam de forma geo-localizada.

A cidade se inscreve a partir dos agrupamentos entre regiões tidas como mais interessantes, enquanto as demais ficam esquecidas pelos olhares dos fotógrafos, amadores ou profissionais. Várias implicações pode-se fazer a esse respeito, inclusive políticas: a forma como uma cidade se estrutura em determinados centros – hubs – para receber turistas, em detrimento de outros bairros, que recebem menor atenção para projetos de revitalização e urbanização. Ou de que forma se diminui a visão de que se tem de uma cidade quando toda a atenção se dá apenas em pontos específicos, que prescrevem um discurso monopolizante de um dado espaço.

Veja mais em: http://www.flickr.com/photos/walkingsf/sets/72157623971287575/map/

Bem-vindos!

Olá! Como vocês estão? Inicio esse blog, como exercício para meus estudos sobre as imagens aplicadas às novas tecnologias – principalmente através dos sites de compartilhamento de imagens. Críticas, divulgação, matérias… enfim, o que for possível fazer.