A criação de redes de compartilhamento de fotografias

A definição do que se entende por redes compartilhamento de fotografias, aqui, delimita-se à formação de agrupamentos humanos – por mais de um nó e conexão – em que é possível estabelecer laços em virtude do compartilhamento de interesses centrados na fotografia. E isto se dá a partir de fotografias exibidas em algum suporte – impresso ou digital -, situadas através da mediação em ambientes físicos ou virtuais.

Carte-de-Visite: criação de Disdéri ajudou na popularização da fotografia e de um formato de cartão usado até hoje, não apenas por fotógrafos

Desse modo, partindo para um plano histórico da fotografia enquanto objeto passível de interações – nesses ambientes físicos -, é considerado aqui o ato de compartilhar a partir do segundo momento do aperfeiçoamento dos processos fotográficos; a saber, a descoberta do cartão de visita fotográfico (carte-de-visite) por André Disdéri (1819 – 1889), que coloca ao alcance de muitos o que até aquele momento, segundo Fabris – em seu artigo A invenção da fotografia: Repercussões sociais – , “fora apanágio de poucos e confere à fotografia uma verdadeira dimensão industrial, quer pelo barateamento do produto, que pela vulgarização dos ícones fotográficos em vários sentidos” (p. 17).

O primeiro momento estende-se de 1839 aos anos 1850, quando o interesse pela fotografia se restringe a um pequeno número de amadores, provenientes das classes abstadas, que podem pagar os altos preços cobrados pelos artistas fotógrafos. Dessa forma, esse momento é restrito a apenas uns poucos afortunados, que queriam ter seus registros visuais, e não se interessavam até então a estabelecer uma cultura visual, na qual fotografias são compartilhadas.

Já no segundo momento histórico, a construção de representações passa a fazer sentido quando Disdéri fotografa o cliente de corpo inteiro e o cerca de artifícios teatrais que definem seu status, longe do indivíduo e perto da máscara social, numa forma de representação de si em que se fundem o realismo essencial da fotografia e a idealização intelectual do modelo. Segundo Fabris (p. 21):

É por isso que não hesita em embelezar o cliente, aplicando a técnica do retoque. O “agradável”, ameaçado pela exatidão da fotografia, torna-se o grande trunfo do fotógrafo industrial, que pode fornecer à clientela sua imagem “num espelho”… complacente.

Nessa citação, é percepetível aqui já toda uma estatégia de gerenciamento de impressões; isto porque aquele fotografado tinha a preocupação em se representar para aqueles que compartilhava, de modo a revelar traços positivos de si.

Por volta de 1880, tem início a terceira etapa: é o momento de massificação, quando a fotografia se torna fenômeno prevalentemente comercial, sem deixar de lado sua pretensão a ser considerada arte; como também a discussão, à época, sobre os limites da pintura figurativa em apresentar o “mundo real” – algo que só seria possível pela fotografia, como defendiam alguns adeptos desse novo meio.

É nesse momento, principalmente com a produção das câmeras compactas, e o surgimento de uma grande indústria de câmeras – a Kodak, de George Eastman (1854-1932) -, que é possível perceber como a partir daí as fotografias criam uma cultura de compartilhar, que até o momento atual faz com que indivíduos participem; porém, a partir da década de 1990, através da internet, houve uma ampliação na difusão das fotografias, e no estabelecimento e manutenção de laços com aqueles fisicamente distantes. Nesse ambiente, outra tecnologia se torna fundamental para o crescimento no uso: a digitalização da imagem. Mas isto já é outra história.

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Compartilhamento de fotografias não é mais o primeiro interesse

Pesquisas recentes acerca dos sites de redes sociais (SRSs) tem constatado que são os jogos sociais o motivo pelo qual os usuários participam dos mesmos. Dessa forma, o compatilhamento de fotografias fica em segundo lugar no que se refere ao principal interesse; e é possível salientar uma relação disto com o crescimento do Facebook, que apresenta um grande número e variedade de jogos.

Porém, a forma mais comum de contribuição de conteúdo no Facebook é o upload de fotos; a página de fotografias do referido site atrai mais de duas vezes o tráfego se comparado com três maiores sites de compartilhamento de fotografias. Não se trata apenas de fazer o upload de fotos, existem também mecanismos do site para o que Moira Burke, Cameron Marlow e Thomas Lento chamaram de aprendizagem social[1]. Além disso, as fotos aparecem em muitos momentos e páginas, incluindo álbuns recém criados, as fotografias de novos usuários, álbuns de seus amigos, seus feeds de notícias e dos seus perfis; portanto, há muitas oportunidades para ambos a criação de estratégias representação através das fotos e para a experiência do compartilhamento das mesmas. Contudo, há de se ressaltar aqui a atenção dada aos jogos sociais, tanto por parte das pesquisas como pelos usuários.

Jogos sociais
Jogos sociais – da forma como são compreendidos na internet – surgiram no Facebook em 2007, com o lançamento da plataforma. Desde então, passou para mais de 500 milhões de visitantes mensalmente, e mais de 70% dos visitantes utilizam desses aplicativos. No ano passado, os jogos sociais tornaram-se uma das mais populares formas de aplicativos sociais, gerando algo em torno de US$ 500 milhões em receita – a maioria das quais provenientes do Facebook. De acordo com reportagem do site Mashable, Embora o Facebook seja o site com mais usuários, reúne menos de 30% dos visitantes únicos nas redes sociais da internet. Há cerca de 40 SRSs com mais de 10 milhões únicos mensais e cerca de 150 com mais de 1 milhão. As empresas que compõem o restante desse tráfego dos SRSs estão apenas começando a perceber o empenho e os benefícios de monetização dos jogos sociais. Alguns, como o Quepasa, fizeram dos jogos sociais uma parte central de sua estratégia.

Farmville: o mais popular do Facebook

Farmville: um dos mais populares do Facebook

Sem querer discorrer muito acerca dos jogos sociais, cito aqui parte da pesquisa de Raquel Recuero, na qual levanta características fundamentais do público: a idade dos jogadores tem uma variação maior do que a dos games em geral. Como os sites de rede social congregam uma quantidade enorme de pessoas, o comportamento de “cascata” possibilita – assim como com as fotografias – que esses jogos espalhem-se também dentro de redes sociais mais heterogêneas, como círculos familiares. E, por fim, são jogos que necessitam de pouco investimento para aprendizado e que rapidamente oferecem benefícios sociais e individuais para os jogadores – possibilitando assim a aquisição de jogadores.

Fotos
Ainda assim, penso que o interesse por compartilhar fotografias é fundamental para o estabelecimento de laços entre usuários, como também para a inserção de novos usuários. Isto porque é algo anterior à internet, a exemplo dos clubes de fotografias ou das reuniões entre amigos e parentes para compartilhar álbuns. Existe uma afinidade por perceber o que as fotos podem revelar de um indivíduo, e de como são capazes de tecer formas de subjetivação por meio destas.

Sem esquecer aqui de mencionar os sites de compartilhamento de conteúdos, nos quais há também um espaço para o compartilhamento de fotografias. Não quero aqui me posicionar como um defensor disto ou daquilo, mas simplesmente constatar que o impulso por interagir com outros indivíduos através das fotografias perpassa tanto a internet como a afinidade por uma fotografia com um viés mais artístico, digamos. E isto faz com que o ato de compartilhar não perca a importância enquanto recurso para os sites de redes sociais. Ainda, tal impulso trata-se de uma relação complexa, que envolve a ativação de nós semânticos – os quais remetem a momentos diversos de nossas vidas – ou a percepção em torno de uma estratégia de representação do “eu”, dentre outras formas de perceber o fenômeno, e sua fácil adesão.


[1] Artigo: Feed Me: Motivating Newcomer Contribution in Social Network Sites (2009).

Onde estão meus amigos do Fotolog?

Página inicial do Fotolog: poucas mudanças com o passar dos anos, no geral

Em uma primeira análise, a resposta para a pergunta do título desse post seria: em nenhum lugar. Isto porque, o Fotolog, que num tempo longínquo para esse ambiente online – no início e até meados dessa década – era um dos sites de redes sociais mais populares no Brasil, passou a perder força a partir de 2005 e atualmente é utilizado por um número bastante inferior: é apenas o 416º e o 75º no Brasil, de acordo com a medida de traffic rank do Alexa.

Em 2004, no seu período mais expressivo, o Brasil tinha mais de 200 mil fotologs, sendo à época o país com maior número de fotologs cadastrados no sistema. Já no início de 2006, o site retirou as estatísticas do ar – provavelmente devido a perda no número de usuários, se comparado proporcionalmente a outros sites que cresceram. No próprio site, as estatísticas apresentadas são de 2008, e não fazem mais referências a comparações com outros sites promotores de redes sociais no Brasil.

Por que isto aconteceu?

Fazendo uma análise mais considerável, pensei nesse post ao começar a vasculhar minha antiga conta no site, e relembrar um pouco os momentos passados, e como estes foram bons o suficiente para achar que não poderiam ter acabado. Daí, passei a procurar por motivos que tenham ocasionado um desinteresse pelo site por parte dos brasileiros, em geral. Penso em dois motivos, que inclusive podem caminhar juntos: (1) o fotolog possui muito menos recursos de personalização e interação se comparado a outros sites e (2) outros sites, a exemplo dos sites de relacionamentos como Orkut e Facebook, passaram a adotar recursos de compartilhamento de fotografias semelhantes aos do fotolog, impulsionando assim seu esquecimento.

Na primeira proposição, é reconhecido o descaso da equipe do Fotolog no desenvolvimento de mais recursos para dinamizar as interações, e poder personalizar ainda mais as páginas dos usuários – as formas como os usuários se representam para os outros. Olhando o site hoje, me vem a mesma imagem de quando usava-o em 2004: mesmo layout, poucas alterações quanto a ações possíveis de se fazer em cada post – apenas inserir comentários para quem visualiza um post, e apenas inserir legenda e a foto em um único tamanho para quem faz a postagem.

Já a segunda diz respeito a outros sites de redes sociais virem a suplantar a função do fotolog a medida em que passaram a dispor dos mesmos recursos do site aqui tratado, e quando não mais. Como o Orkut, que ampliou a página de fotos dos usuários: o que até 2006 era para no máximo 12 fotos, é atualmente ilimitado e pode ser organizado por “álbuns”, receber comentários e marcar pessoas nas fotos, além das configurações de privacidade; ou o caso do Flickr, que em certa medida absorveu usuários do fotolog em virtude da quantidade de recursos a disposição dos usuários. Assim, as pessoas continuaram a compartilhar suas fotos, porém em outros ambientes, em muitos casos em mais de um.

Ainda assim, sinto falta de algo que só foi possível ser obtido no Fotolog – pois acredito que cada rede social tem suas particularidades unicamente inerentes a mesma. Havia, lá, uma ambiência que favorecia o estabelecimento de laços fortes, e isto se dava principalmente a partir do compartilhamento de experiências cotidianas, acima de discussões acerca de questões estéticas que a própria foto viesse a suscitar. Ainda que isto possa ter continuado para outros usuários, em outras redes, existia um público específico que se encontrava por lá, que não mais achei nesses dois sites acima usados como exemplo para o enfraquecimento do fotolog. E não acredito que isto tenha ocorrido apenas comigo. Pensando nesse viés, provavelmente um público mais jovem se aproprie de outras redes, da forma como nós – eu meus amigos – fizemos com o fotolog; ou como uma geração anterior a minha se apropriou das listas de discussão.

Então, a resposta mais convincente para o título desse post seria: em vários lugares.