Imagem nas mídias sociais

Hoje é o dia mundial da fotografia! Nessa série de ações que vários sites e fotógrafos fizeram na lembrança da data comemorativa, esta imagem abaixo me chamou atenção, pela relação com o que venho fazendo na pós-graduação. Trata-se de um infográfico no qual apresenta os principais serviços de compartilhamento de imagens utilizados pelos brasileiros na internet. Elaborado pela agência Mentes Digitais.

Assim, trata do início, com o Fotolog, e vai consequentemente apontar como essa relação com a fotografia passa a ter um componente importante no processo, que são as câmeras nos dispositivos móveis. Prova disso é o sucesso do Instagram, que passa a ser um ator fundamental para o entendimento dessa prática de compartilhamento dos últimos dois anos, tendo em vista a aceitação do público e o desenvolvimento dos dispositivos – que passam a diminuir consideravelmente o tempo entre o ato fotográfico e o ato de compartilhar com a rede social do usuário.

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A criação de redes de compartilhamento de fotografias

A definição do que se entende por redes compartilhamento de fotografias, aqui, delimita-se à formação de agrupamentos humanos – por mais de um nó e conexão – em que é possível estabelecer laços em virtude do compartilhamento de interesses centrados na fotografia. E isto se dá a partir de fotografias exibidas em algum suporte – impresso ou digital -, situadas através da mediação em ambientes físicos ou virtuais.

Carte-de-Visite: criação de Disdéri ajudou na popularização da fotografia e de um formato de cartão usado até hoje, não apenas por fotógrafos

Desse modo, partindo para um plano histórico da fotografia enquanto objeto passível de interações – nesses ambientes físicos -, é considerado aqui o ato de compartilhar a partir do segundo momento do aperfeiçoamento dos processos fotográficos; a saber, a descoberta do cartão de visita fotográfico (carte-de-visite) por André Disdéri (1819 – 1889), que coloca ao alcance de muitos o que até aquele momento, segundo Fabris – em seu artigo A invenção da fotografia: Repercussões sociais – , “fora apanágio de poucos e confere à fotografia uma verdadeira dimensão industrial, quer pelo barateamento do produto, que pela vulgarização dos ícones fotográficos em vários sentidos” (p. 17).

O primeiro momento estende-se de 1839 aos anos 1850, quando o interesse pela fotografia se restringe a um pequeno número de amadores, provenientes das classes abstadas, que podem pagar os altos preços cobrados pelos artistas fotógrafos. Dessa forma, esse momento é restrito a apenas uns poucos afortunados, que queriam ter seus registros visuais, e não se interessavam até então a estabelecer uma cultura visual, na qual fotografias são compartilhadas.

Já no segundo momento histórico, a construção de representações passa a fazer sentido quando Disdéri fotografa o cliente de corpo inteiro e o cerca de artifícios teatrais que definem seu status, longe do indivíduo e perto da máscara social, numa forma de representação de si em que se fundem o realismo essencial da fotografia e a idealização intelectual do modelo. Segundo Fabris (p. 21):

É por isso que não hesita em embelezar o cliente, aplicando a técnica do retoque. O “agradável”, ameaçado pela exatidão da fotografia, torna-se o grande trunfo do fotógrafo industrial, que pode fornecer à clientela sua imagem “num espelho”… complacente.

Nessa citação, é percepetível aqui já toda uma estatégia de gerenciamento de impressões; isto porque aquele fotografado tinha a preocupação em se representar para aqueles que compartilhava, de modo a revelar traços positivos de si.

Por volta de 1880, tem início a terceira etapa: é o momento de massificação, quando a fotografia se torna fenômeno prevalentemente comercial, sem deixar de lado sua pretensão a ser considerada arte; como também a discussão, à época, sobre os limites da pintura figurativa em apresentar o “mundo real” – algo que só seria possível pela fotografia, como defendiam alguns adeptos desse novo meio.

É nesse momento, principalmente com a produção das câmeras compactas, e o surgimento de uma grande indústria de câmeras – a Kodak, de George Eastman (1854-1932) -, que é possível perceber como a partir daí as fotografias criam uma cultura de compartilhar, que até o momento atual faz com que indivíduos participem; porém, a partir da década de 1990, através da internet, houve uma ampliação na difusão das fotografias, e no estabelecimento e manutenção de laços com aqueles fisicamente distantes. Nesse ambiente, outra tecnologia se torna fundamental para o crescimento no uso: a digitalização da imagem. Mas isto já é outra história.

Mídias sociais e representação: alguns apontamentos temporais

Trazendo essa para o campo teórico da comunicação, Scott Lash, em seu livro Critique of information, faz uma distinção entre os meios de comunicação de massa e aqueles anteriores a estes. Para ele, a diferença se dá principalmente numa dimensão temporal.

Os meios massivos operam, via de regra, por meio da apresentação: apenas apresentando a informação – ainda que não possa ser ignorado o juízo de valor do repórter. Há obviamente convenções e protocolos para a produção da informação: se é um telejornal ou um jornal diário, por exemplo. Porém, isto são protocolos, métodos para apresentação, e não representação. Eles compreendem um enquadramento da apresentação dos assuntos, a depender do veículo; e tratam de uma seleção de sinais cujos espectadores recebem. E a duração de cada meio concebido – um telejornal, um jornal diário, um programa de rádio – é até a próxima edição desse meio. Ou seja, após um tempo, a informação é ressignificada apenas pelos desdobramentos em edições posteriores dos veículos, e não por outros atores (recepção). A não ser que estes influenciem diretamente o curso do próprio desenrolar dos fatos…

Já com relações às mídias anteriores a estas, opera-se por meio da representação: acadêmicos, pintores, atores, escritores, dentre outros, trabalham em uma duração do tempo maior. Um livro pode ter influência por anos, ser discutido décadas depois, ou pode demorar anos para ser escrito – uma escala de tempo diferente da de um jornalista. Concerne ao espectador sempre ressignificar os discursos: contrapondo, acrescentando ou reformulando-os.

Se levarmos em conta a possibilidade das mídias sociais, é possível refletir que estes, assim como as mídias anteriores às massivas, operam por meio da representação, pois os usuários sempre combinam as informações recebidas com as que possui, e trabalham na produção de sentido diferente dos padrões de broadcasting[1]. Comparado aos meios massivos, o conteúdo gerado pelos usuários nas mídias sociais não requer a velocidade das primeiras para a aproximação do usuário com o conteúdo produzido pelos demais. Pois a informação estará sempre presente, acessível para aqueles interessados em interagir com esta. Ainda que atualizações venham a ter maior destaque à posts mais antigos, é possível ainda interagir com estes; além do que, não existe a urgência pelo consumo da informação postada.

Ainda, cada novo conteúdo inserido em um mesmo post, alterará o modo como a percepção do todo operará na representação. Tomando como análise um post no site Flickr, cada novo comentário terá a potência de uma nova informação presente no mesmo conteúdo. Portanto, novas possibilidades de ressignificação da mesma foto podem ser construídas de acordo com a recepção que um dado conteúdo inserido tiver sobre os usuários interagem com essa foto. Como exemplo, no post da usuária Dilma Rousseff (11 de abril) na qual ela registra o uso do Twitter pela primeira vez.

Post da usuária Dilma Roussef, candidata nessas eleições. Fonte: http://www.flickr.com/photos/dilma-rousseff/4512632528/

Post da usuária Dilma Rousseff, candidata a presidente; comentários ressignificam o discurso.

É possível perceber, no post, que Dilma procura se representar como alguém iniciando uma “vida” de usuária de plataformas de redes sociais na internet, ao mesmo tempo que revela ser a própria quem atualiza, e não uma assessoria. Sem esquecer o fato dela ser candidata nas eleições para presidente desse ano, um usuário do Flickr comentou no post sobre o fato de que, por só estar nesse ano fazendo uso dessas mídias sociais, toda sua participação se configura como mais uma “ação eleitoreira”, e não uma vontade dela em interagir com os usuários por outros moitvos. Daí, a discussão no post foi direcionada para essa questão, e vários usuários tentaram defendê-la argumentando que Dilma não é “oportunista”, ou que sempre foi aberta a ouvir as pessoas, enquanto, por outro lado, usuários chamaram-na de “mentirosa”, que estaria “posando de conectada” – dando a entender que não é ela quem mantém suas contas no Twitter e Flickr.

Nesse exemplo, percebe-se uma atitude reflexiva: tanto por parte de quem emite mensagem – configurada através de estratégias de gerenciamento da expressão emitida – como por parte de quem recebe – aqueles que recombinaram o discurso inicial centrando numa discussão acerca de comentários surgidos à foto, ressignificando assim de acordo com as discussões surgidas nos comentários ao post.

Numa dimensão temporal, as mídias sociais têm a maior duração também devido ao fato que não operam necessariamente baseadas na velocidade das informações, que possam manter os espectadores abastecidos por desenrolares de um dado assunto na agenda da mídia – a exemplo do post supracitado. Não se pretende, aqui, julgar que há um movimento em direção a resgatar o poder de representação da mídia, mas sim uma conseqüência das possibilidades oferecidas com a web 2.0.


[1] É necessário uma ressalva, aqui, quanto ao impacto de uma notícia em um determinado indivíduo, que pode criar um determinado quadro sobre um dado assunto e/ou influenciar no seu comportamento perante ao mesmo – ainda que isto possa ocorrer de forma inconsciente. Sem esquecer também do poder de uma determinada notícia se fazer num conjunto: a inserção de um quadro na agenda de um veículo sobre um determinado tema pode formar a opinião dos seus leitores, ouvintes ou telespectadores.