Fotografia e internet: algumas passagens e tensões

Vive-se um momento na história da fotografia em que a multiplicação da problemática dos modos de produção e dos seus suportes de expressão, introduzidos por tecnologias que foram surgindo – câmeras, processos de revelação, meios digitais, computadores e em seguida a internet –, exigem novas leituras desse fazer fotográfico. Isto porque, essas tecnologias podem convergir várias mídias e funções.

Considerando o que acima expus, Arlindo Machado, em seu livro Arte e Mídia, defende que em lugar de pensar os meios individualmente, o que começa a interessar agora são as passagens que se operam entre as mídias. Pois essas passagens permitiriam compreender melhor tensões e ambigüidades que se operam atualmente entre: (1) o movimento e a imobilidade, (2) entre o analógico e o digital, (3) o figurativo e o abstrato, (4) o atual e o virtual.

Buscando interpretar essas passagens, no primeiro caso quando a obra não está presa apenas a um lugar, podendo estar presente em vários pontos da rede, simultaneamente; uma foto no Flickr pode, com isso, ter um alcance cujas barreiras de tempo e espaço são diminuídas: não há mais a necessidade do local (espaço) e a instantaneidade de sua propagação (tempo). No segundo, quando observam-se as possibilidades de apresentação de uma obra fotográfica que é agora digital, em que o processo físico-químico é substituído pelo registro em bits, o que dá ao fotógrafo a possibilidade de propagar na internet e manipular através de softwares de edição de imagens. No terceiro quesito, quando percebe-se uma fronteira não mais tão clara entre o que seria figurativo ou abstrato na produção fotográfica, em que o artista, ao explorar os recursos de sua câmera e de pós-produção (edição), altera as fronteiras destinadas unicamente a pintura ou a fotografia: tanto podem ser interpretados como figurativo ou abstrato a imagem finalizada. Por fim, discute-se o atual e o virtual ao pensar na fotografia apresentada nas redes sociais de compartilhamento na internet e na própria imagem virtual, aquela que se dá como potência do atual, como já defendeu Pierre Lévy.

Para Machado, pensar nessas tensões não se trata apenas de uma estratégia para compreender as novas imagens; essa seria a maneira como a indústria cultural agora funciona. Pois esse momento provocou a automatização da imagem, tendo seu início no século XIX com as primeiras câmeras, e contribuindo para a consolidação de uma indústria cultural; as ditas “belas artes” passam a não ser mais destinadas exclusivamente a poucos apreciadores. Se considerarmos aqui a fotografia digital e os sites que possibilitam a criação de redes na internet, é possível dizer que a produção e conseqüente propagação assumem outras proporções. Não se trata necessariamente de uma “nova fase” na fotografia, com relação a sua linguagem; mas sim de uma multiplicação na forma em que as imagens podem ser apresentadas (e representadas) ao público – amador ou profissional.

Essas discussões fazem parte do que venho me interessando. Espero poder contribuir com as pesquisas sobre fotografias quanto ao seu compartilhamento na web, no referente aos seus suportes de expressão; aprofundando questões relacionadas aos processos psicossociais em decorrência do contato com as tecnologias da comunicação e suas apropriações.

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