Categorizamos as imagens, sempre

Criadores, colecionadores, curadores e espectadores atribuem textos às imagens. Estes tendem a ser categóricos, no sentido de que representam classes de coisas que compartilham atributos comuns com outras coisas, como o modo que uma imagem ou grupos de imagens podem ser diferenciados de outras imagens ou grupo de imagens. Não vou aqui abordar essa questão em algum plano filosófico, ou mesmo semiótico, sobre como criamos textos (significados) a tudo que nos deparamos, como forma de nos adaptarmos a realidade a partir de elementos tangíveis à nossa cognição. Partirei, sim, de um ponto de vista semântico.

Podemos ver, sem nomear o que vemos; no entanto, não podemos pensar sobre o que vemos sem caracterizar essa experiência cognitiva através da linguagem. A nomeação de imagens e objetos que lhes estão associados estabelece eixos de sentido que podem ser comunicados aos outros.

Em seu artigo Cognitive Reference Points, Eleanor Rosch argumenta que quando as pessoas nomeiam um objeto, eles contam com a economia cognitiva derivada de atributos oferecidos em uma imagem para classificar esse objeto em alguma categoria de base útil. É possível assim falarmos sobre as imagens usando palavras, e não usando outras imagens.

Rosch dividiu então esses níveis de classificação visual em superordenado, que contém ou classifica o nível básico do objeto, bem como uma série de outros objetos que tenham atributo específico em comum; há ainda o nível subordinado de categorização, cujo espectador aprofunda o referencial do objeto visto, sendo suscetível de responder com uma categoria que tem menos atributos em comum do que qualquer das categorias de base ou superordenadas do mesmo objeto.

Post do Flickr. Categorizamos através de legendas, tags, títulos, comentários...

Por exemplo: ao ver a fotografia de um carro, um espectador responde provavelmente ao nível básico – se trata de um carro – do que se refere a ele como um meio de transporte (superordenado). Ainda, aquele possuidor de conhecimentos específicos poderá remeter para a foto acima exemplificada como um Volkswagen Fusca 1967. Nesse nível, enquanto que o termo se destina a definir mais claramente o objeto da fotografia, tal ação disto introduz ainda outro problema de usar palavras para as imagens – ou mesmo inserir tags, em sites de compartilhamento. Se tentarmos buscar uma palavra como “1967”, todas aquelas que forem etiquetadas com tal palavra aparecerão na busca – uma infinidade.

Assim, coleções de imagens são estruturadas em torno desse tipo de categorização superordenada, básica e subordinada. Estariam dessa forma também sendo categorizadas nessas redes de compartilhamento de fotografias?

À primeira vista, essa abordagem parece ser uma solução lógica, dando oportunidade de organizar as imagens a fim de oferecer padrões de acesso funcional. No entanto, acessos à imagem física e digital representam dois aspectos diferentes em relação à categorização. A obra (original) não pode ser “pendurada” em dois lugares ao mesmo tempo, embora possa condizer com mais de uma categoria; e uma imagem na internet pode ocupar e ser vista em diversas categorias diferentes, representando mais de uma vez. Dessa forma, uma diferença crucial surge nessa forma de categorizar, se for comparar ambientes online e offline: a possibilidade de uma mesma iamgem estar presente em mais de uma categoria – o que auxilia a uma mais precisa busca por estas.

Concluindo, nenhum indivíduo ou grupo, não importa quão profissional ou especialista em um dado segmento, pode capturar todas as impressões invocadas por uma imagem. Criamos texto para darmos referências às imagens, e o que esperamos representar aos usuários, no sentido de construir um discurso de si; mesmo sabendo que nunca uma imagem se esgota no número de palavras nas quais podemos atribuí-las, isto é melhor percebido através do contato com outras pessoas – no que estas imagens representam para elas.

Anúncios