Imagem nas mídias sociais

Hoje é o dia mundial da fotografia! Nessa série de ações que vários sites e fotógrafos fizeram na lembrança da data comemorativa, esta imagem abaixo me chamou atenção, pela relação com o que venho fazendo na pós-graduação. Trata-se de um infográfico no qual apresenta os principais serviços de compartilhamento de imagens utilizados pelos brasileiros na internet. Elaborado pela agência Mentes Digitais.

Assim, trata do início, com o Fotolog, e vai consequentemente apontar como essa relação com a fotografia passa a ter um componente importante no processo, que são as câmeras nos dispositivos móveis. Prova disso é o sucesso do Instagram, que passa a ser um ator fundamental para o entendimento dessa prática de compartilhamento dos últimos dois anos, tendo em vista a aceitação do público e o desenvolvimento dos dispositivos – que passam a diminuir consideravelmente o tempo entre o ato fotográfico e o ato de compartilhar com a rede social do usuário.

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Arte e comunicação: aproximações com a arte telecomunicacional

As mudanças no fazer fotográfico foram causadas pela velocidade dos meios de transporte, pela globalização político-social, pelo desenvolvimento de tecnologias de comunicação e com o surgimento do ciberespaço. Com a internet – através de sites de compartilhamento –, a comunicação entre os próprios artistas ou entre artistas e público possibilita algo mais direto, pois o artista sempre estará visitando a “galeria” para observar como usuários interagiram com as fotografias – quais as mais comentadas, as mais visitadas, as mais indicadas. É também uma forma de comunicação – uma arte telecomunicacional. Esta seria definida por Roy Ascott[1] como toda a produção artística que faz uso das tecnologias telecomunicacionais para se expressar: por fios, ondas sonoras, meios ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético.

Esses artistas estavam alinhados aos questionamentos conceituais sobre o objeto de arte que acabaram culminando em eventos de performance, happening, arte em processo e utilização de novos meios de comunicação, como as máquinas fotocopiadoras, as serigrafias, o off-set, os postais as fotografas e os diapositivos. O início se dá na arte postal, na medida em que esta propunha o intercâmbio de trabalhos através de uma rede transnacional e livre e paralela ao mercado oficial da arte.

Arte postal de Paulo Bruscky (sem título, acervo pessoal, 1976), pioneiro no Brasil nesse campo e um dos maiores colecionadores no mundo

À medida que a rede de arte postal crescia, grupos publicavam listas de endereços para interessados em trocar trabalhos e idéias. Suzete Venturelli[2] conta que como a maioria dos trabalhos estavam relacionados com a arte conceitual e a performance, cujos resultados eram fotografados, e muitas correspondências constituíam-se dessas imagens. “A natureza democrática de sua prática e o fato de constituir uma rede situaram-na em oposição ao elitismo da arte de galerias e museus”.

Já com a pop-art, a relação da arte com os meios de comunicação estreitaram-se por meio de artistas como Roy Lichtenstein, Andy Warhol e Tom Wesselman. A rede que se formava fora do mercado e das instituições criava uma “economia do imaterial”, diz Venturelli: idéias e discussões compartilhadas, sendo as obras não mais vendidas como únicas. Décadas seguintes foram marcadas por forte experimentação com os meios tecnológicos e comunicacionais que, com o tempo, surgiam e se apresentavam aos artistas como possibilidades de criação e difusão. A exenplo de investidas na arte em vídeo, na holografia e no computador.

Portanto, já existia uma arte que fazia uso de redes sociais de compartilhamento antes da internet; porém, são percebidas aqui duas diferenças: a amplitude da rede social e a possibilidade de englobar rapidamente novos fruidores que não sejam apenas artistas; pois na internet a possibilidade de comunicação se amplia e o pólo emissor (artista) pode se comunicar de um ponto a diversos de uma rede sem ao menos endereçar a alguém especificamente – basta estar no ciberespaço, com seu trabalho divulgado em qualquer página da web. Não deve se esquecer aqui o fato de que os próprios museus e galerias, pela quantidade de pessoas envolvidas no fazer das exposições – artistas, curadores, produtores, público – já se constitui uma rede, embora não telecomunicacional como aqui exponho. A mediação, nesse caso, se dá através das mídias e do artista, e não pelas instituições e curadores.

Esse ciberespaço, diz Venturelli, tornou-se um lugar de aproximação e sociabilização da arte e do público, sem intermediação de instituições artísticas, tais como museus, galerias de artes e eventos como as bienais. O advento de meios eletrônicos se constituiu em algo algo de valor para a criação de obras intercambiantes e mutantes, abertas na direção de uma cultura através de redes sociais. Assim, percebe-se que a relação estabelecida entre a arte e o espaço comunicacional, principalmente longe dos habituais espaços de exposição artísticos, é uma morada dos trabalhos artísticos há mais de 20 anos.


[1] Livro Telematic Embrace: Visionary Theories of Art, Technology and Consciouness (2003).

[2] Livro Arte: Espaço tempo imagem (2004).

Humanos e não-humanos no compartilhamento de fotografias

Venho estudando, por esses dias, a emergência de humanos e não-humanos em redes de compartilhamento de fotografias. Para tanto, utilizo a Teoria Ator-Rede para a compreensão da dinâmica das interações em um post no site Flickr.

Acredito que compreender a dinâmica das redes sociais requer uma análise não apenas nos processos de interação decorrentes de dois ou mais indivíduos. É necessária a atenção para a presença de atores não-humanos também intervenientes no referido processo. Trazendo a discussão para internet, é preciso se dar conta da presença de variáveis técnicas específicas para cada ambiente interativo, nos quais produzem mecanismos de interação que os tornam únicos, sendo assim difícil de transportar as mesmas dinâmicas de um ambiente a outro.

Essas variáveis técnicas são fornecidas pela equipe desenvolvedora dos sites, numa busca constante por promover mecanismos para o estabelecimento de estratégias de representação e de interação entre usuários – ainda que nem sempre alterações e inserções de novas ferramentas no sistema venham a ser bem recebidas pelo público. E a Teoria Ator-Rede pode ajudar na busca por compreender como actantes oriundos de diversas situações – humanos ou não – se inscrevem em um determinado processo de modo a criar redes heterogêneas.

Redes heterogêneas
A Teoria Ator-Rede pesquisa os processos de interação na sociedade, mas sem ignorar o ambiente em que se dá a situação e a presença de outros actantes – no caso, os não-humanos –, os quais também fazem parte do processo, sem a existência de uma hierarquia. Heterogeneidade é um aspecto central de uma rede estável. Quanto mais diversos elementos estão inter-relacionados, mais complexa e estável a rede se torna.

Essa seria o que John Law[1] considerou como uma rede heterogênea. Ou seja, Law diz que o conhecimento adquirido pelos actantes humanos é incorporado em uma variedade de formas materiais. Em uma rede desse tipo, cada elemento é mantido no lugar através de um conjunto heterogêneo de vínculos com outros actantes; a fim de desvincular múltiplos actantes determinados, múltiplas conexões têm de ser desatadas.

A resposta da Teoria Ator-Rede sobre de que modo essas redes são concebidas é de que são o produto final de um trabalho de informações e partes diversas: tubos de ensaio, organismos, mãos hábeis, microscópios eletrônicos, cientistas, artigos, terminais de computador, dentre outros; estes funcionam isoladamente, mas são justapostos numa rede. Sobre isto, assim como nas interações face-a-face, existe uma variável técnica que opera no sentido de possibilitar certas condições para o estabelecimento de interações, de laços de um actante humano na rede.

Este, então, é um dos problemas de pesquisa da Teoria Ator-Rede: a preocupação com a forma em que actantes e organizações mobilizam, justapõem e unem os pedaços dos quais são compostos; como eles às vezes são capazes de impedir os pedaços de seguir suas próprias inclinações e formas de devir; e como conseguem, a partir disto, virar uma rede de um conjunto heterogêneo de pedaços, cada um com suas próprias inclinações.

Flickr
Se pensada a questão a partir do que preceitua a Teoria Ator-Rede, todos os recursos presentes num post, a promover interações e representações, podem ser compreendidos como os actantes, nos quais podem ser gerenciados pelos próprios usuários postam a foto, por aqueles que interagem ou pelo próprio sistema. Estes aparecem de modo a fomentar as interações possíveis a partir do que uma fotografia pode representar para os indivíduos e aos demais.

Indicação (em vermelho) de actantes presentes em um post do Flickr

As interações feitas pelos usuários em um dado post são fundamentais no rumo em que uma dada foto pode ser compreendida pelos demais usuários; ou seja, o processo de representação de um usuário só se completa a partir da interação com os demais. Assim como sugere a Teoria Ator-Rede, a essência é a ação: o momento em que actantes se dão ao encontro. Por exemplo, um comentário em uma dada foto pode alterar toda a ordem de um discurso presente em um post; ainda, pode até fazer com que a foto tenha menos importância para aqueles que interagem no mesmo, para ser assim tomado como foco de atenção o que foi comentado pelos usuários.

Trabalhando em conjunto, os actantes presentes no Flickr possibilitam a formação de redes heterogêneas, pois é no conjunto das ações desenvolvidas que se dá a emergência de toda uma dinâmica das interações no ambiente do referido site. E é isto que possibilitará o estabelecimento de laços nessas redes, de acordo com os interesses de cada um.

Acredita-se que a Teoria Ator-Rede possa inclusive ser importante para questionar a concepção tradicional que se tem de redes sociais na internet, tendo em visto o modo como se valoriza a presença de outros actantes exteriores ao próprio indivíduo: aparecem como apenas um suporte, um meio para a interação entre humanos; não há a devida compreensão da simetria entre humanos e não-humanos, dependentes entre si.

É isto, e mais um muito, que posteriormente vou trabalhar.


[1] Artigo Notes on the theory of the actor­network: ordering, strategy and heterogeneity (1992). Vale também salientar que o termo actante é utilizado pela Teoria Ator-Rede para designar aqueles que agem em uma determinada situação.

A Teoria Ator-Rede pesquisa os processos de interação na sociedade, mas sem ignorar o ambiente em que se dá a situação e a presença de outros actantes[1] – no caso, os não-humanos –, os quais também fazem parte do processo, sem a existência de uma hierarquia. Heterogeneidade é um aspecto central de uma rede estável. Quanto mais diversos elementos estão inter-relacionados, mais complexa e estável a rede se torna.


[1] O termo é utilizado pela Teoria Ator-Rede para designer aqueles que agem emu ma determinada situação.

Mídias sociais e representação: alguns apontamentos temporais

Trazendo essa para o campo teórico da comunicação, Scott Lash, em seu livro Critique of information, faz uma distinção entre os meios de comunicação de massa e aqueles anteriores a estes. Para ele, a diferença se dá principalmente numa dimensão temporal.

Os meios massivos operam, via de regra, por meio da apresentação: apenas apresentando a informação – ainda que não possa ser ignorado o juízo de valor do repórter. Há obviamente convenções e protocolos para a produção da informação: se é um telejornal ou um jornal diário, por exemplo. Porém, isto são protocolos, métodos para apresentação, e não representação. Eles compreendem um enquadramento da apresentação dos assuntos, a depender do veículo; e tratam de uma seleção de sinais cujos espectadores recebem. E a duração de cada meio concebido – um telejornal, um jornal diário, um programa de rádio – é até a próxima edição desse meio. Ou seja, após um tempo, a informação é ressignificada apenas pelos desdobramentos em edições posteriores dos veículos, e não por outros atores (recepção). A não ser que estes influenciem diretamente o curso do próprio desenrolar dos fatos…

Já com relações às mídias anteriores a estas, opera-se por meio da representação: acadêmicos, pintores, atores, escritores, dentre outros, trabalham em uma duração do tempo maior. Um livro pode ter influência por anos, ser discutido décadas depois, ou pode demorar anos para ser escrito – uma escala de tempo diferente da de um jornalista. Concerne ao espectador sempre ressignificar os discursos: contrapondo, acrescentando ou reformulando-os.

Se levarmos em conta a possibilidade das mídias sociais, é possível refletir que estes, assim como as mídias anteriores às massivas, operam por meio da representação, pois os usuários sempre combinam as informações recebidas com as que possui, e trabalham na produção de sentido diferente dos padrões de broadcasting[1]. Comparado aos meios massivos, o conteúdo gerado pelos usuários nas mídias sociais não requer a velocidade das primeiras para a aproximação do usuário com o conteúdo produzido pelos demais. Pois a informação estará sempre presente, acessível para aqueles interessados em interagir com esta. Ainda que atualizações venham a ter maior destaque à posts mais antigos, é possível ainda interagir com estes; além do que, não existe a urgência pelo consumo da informação postada.

Ainda, cada novo conteúdo inserido em um mesmo post, alterará o modo como a percepção do todo operará na representação. Tomando como análise um post no site Flickr, cada novo comentário terá a potência de uma nova informação presente no mesmo conteúdo. Portanto, novas possibilidades de ressignificação da mesma foto podem ser construídas de acordo com a recepção que um dado conteúdo inserido tiver sobre os usuários interagem com essa foto. Como exemplo, no post da usuária Dilma Rousseff (11 de abril) na qual ela registra o uso do Twitter pela primeira vez.

Post da usuária Dilma Roussef, candidata nessas eleições. Fonte: http://www.flickr.com/photos/dilma-rousseff/4512632528/

Post da usuária Dilma Rousseff, candidata a presidente; comentários ressignificam o discurso.

É possível perceber, no post, que Dilma procura se representar como alguém iniciando uma “vida” de usuária de plataformas de redes sociais na internet, ao mesmo tempo que revela ser a própria quem atualiza, e não uma assessoria. Sem esquecer o fato dela ser candidata nas eleições para presidente desse ano, um usuário do Flickr comentou no post sobre o fato de que, por só estar nesse ano fazendo uso dessas mídias sociais, toda sua participação se configura como mais uma “ação eleitoreira”, e não uma vontade dela em interagir com os usuários por outros moitvos. Daí, a discussão no post foi direcionada para essa questão, e vários usuários tentaram defendê-la argumentando que Dilma não é “oportunista”, ou que sempre foi aberta a ouvir as pessoas, enquanto, por outro lado, usuários chamaram-na de “mentirosa”, que estaria “posando de conectada” – dando a entender que não é ela quem mantém suas contas no Twitter e Flickr.

Nesse exemplo, percebe-se uma atitude reflexiva: tanto por parte de quem emite mensagem – configurada através de estratégias de gerenciamento da expressão emitida – como por parte de quem recebe – aqueles que recombinaram o discurso inicial centrando numa discussão acerca de comentários surgidos à foto, ressignificando assim de acordo com as discussões surgidas nos comentários ao post.

Numa dimensão temporal, as mídias sociais têm a maior duração também devido ao fato que não operam necessariamente baseadas na velocidade das informações, que possam manter os espectadores abastecidos por desenrolares de um dado assunto na agenda da mídia – a exemplo do post supracitado. Não se pretende, aqui, julgar que há um movimento em direção a resgatar o poder de representação da mídia, mas sim uma conseqüência das possibilidades oferecidas com a web 2.0.


[1] É necessário uma ressalva, aqui, quanto ao impacto de uma notícia em um determinado indivíduo, que pode criar um determinado quadro sobre um dado assunto e/ou influenciar no seu comportamento perante ao mesmo – ainda que isto possa ocorrer de forma inconsciente. Sem esquecer também do poder de uma determinada notícia se fazer num conjunto: a inserção de um quadro na agenda de um veículo sobre um determinado tema pode formar a opinião dos seus leitores, ouvintes ou telespectadores.

Categorizamos as imagens, sempre

Criadores, colecionadores, curadores e espectadores atribuem textos às imagens. Estes tendem a ser categóricos, no sentido de que representam classes de coisas que compartilham atributos comuns com outras coisas, como o modo que uma imagem ou grupos de imagens podem ser diferenciados de outras imagens ou grupo de imagens. Não vou aqui abordar essa questão em algum plano filosófico, ou mesmo semiótico, sobre como criamos textos (significados) a tudo que nos deparamos, como forma de nos adaptarmos a realidade a partir de elementos tangíveis à nossa cognição. Partirei, sim, de um ponto de vista semântico.

Podemos ver, sem nomear o que vemos; no entanto, não podemos pensar sobre o que vemos sem caracterizar essa experiência cognitiva através da linguagem. A nomeação de imagens e objetos que lhes estão associados estabelece eixos de sentido que podem ser comunicados aos outros.

Em seu artigo Cognitive Reference Points, Eleanor Rosch argumenta que quando as pessoas nomeiam um objeto, eles contam com a economia cognitiva derivada de atributos oferecidos em uma imagem para classificar esse objeto em alguma categoria de base útil. É possível assim falarmos sobre as imagens usando palavras, e não usando outras imagens.

Rosch dividiu então esses níveis de classificação visual em superordenado, que contém ou classifica o nível básico do objeto, bem como uma série de outros objetos que tenham atributo específico em comum; há ainda o nível subordinado de categorização, cujo espectador aprofunda o referencial do objeto visto, sendo suscetível de responder com uma categoria que tem menos atributos em comum do que qualquer das categorias de base ou superordenadas do mesmo objeto.

Post do Flickr. Categorizamos através de legendas, tags, títulos, comentários...

Por exemplo: ao ver a fotografia de um carro, um espectador responde provavelmente ao nível básico – se trata de um carro – do que se refere a ele como um meio de transporte (superordenado). Ainda, aquele possuidor de conhecimentos específicos poderá remeter para a foto acima exemplificada como um Volkswagen Fusca 1967. Nesse nível, enquanto que o termo se destina a definir mais claramente o objeto da fotografia, tal ação disto introduz ainda outro problema de usar palavras para as imagens – ou mesmo inserir tags, em sites de compartilhamento. Se tentarmos buscar uma palavra como “1967”, todas aquelas que forem etiquetadas com tal palavra aparecerão na busca – uma infinidade.

Assim, coleções de imagens são estruturadas em torno desse tipo de categorização superordenada, básica e subordinada. Estariam dessa forma também sendo categorizadas nessas redes de compartilhamento de fotografias?

À primeira vista, essa abordagem parece ser uma solução lógica, dando oportunidade de organizar as imagens a fim de oferecer padrões de acesso funcional. No entanto, acessos à imagem física e digital representam dois aspectos diferentes em relação à categorização. A obra (original) não pode ser “pendurada” em dois lugares ao mesmo tempo, embora possa condizer com mais de uma categoria; e uma imagem na internet pode ocupar e ser vista em diversas categorias diferentes, representando mais de uma vez. Dessa forma, uma diferença crucial surge nessa forma de categorizar, se for comparar ambientes online e offline: a possibilidade de uma mesma iamgem estar presente em mais de uma categoria – o que auxilia a uma mais precisa busca por estas.

Concluindo, nenhum indivíduo ou grupo, não importa quão profissional ou especialista em um dado segmento, pode capturar todas as impressões invocadas por uma imagem. Criamos texto para darmos referências às imagens, e o que esperamos representar aos usuários, no sentido de construir um discurso de si; mesmo sabendo que nunca uma imagem se esgota no número de palavras nas quais podemos atribuí-las, isto é melhor percebido através do contato com outras pessoas – no que estas imagens representam para elas.

Fotografia e internet: algumas passagens e tensões

Vive-se um momento na história da fotografia em que a multiplicação da problemática dos modos de produção e dos seus suportes de expressão, introduzidos por tecnologias que foram surgindo – câmeras, processos de revelação, meios digitais, computadores e em seguida a internet –, exigem novas leituras desse fazer fotográfico. Isto porque, essas tecnologias podem convergir várias mídias e funções.

Considerando o que acima expus, Arlindo Machado, em seu livro Arte e Mídia, defende que em lugar de pensar os meios individualmente, o que começa a interessar agora são as passagens que se operam entre as mídias. Pois essas passagens permitiriam compreender melhor tensões e ambigüidades que se operam atualmente entre: (1) o movimento e a imobilidade, (2) entre o analógico e o digital, (3) o figurativo e o abstrato, (4) o atual e o virtual.

Buscando interpretar essas passagens, no primeiro caso quando a obra não está presa apenas a um lugar, podendo estar presente em vários pontos da rede, simultaneamente; uma foto no Flickr pode, com isso, ter um alcance cujas barreiras de tempo e espaço são diminuídas: não há mais a necessidade do local (espaço) e a instantaneidade de sua propagação (tempo). No segundo, quando observam-se as possibilidades de apresentação de uma obra fotográfica que é agora digital, em que o processo físico-químico é substituído pelo registro em bits, o que dá ao fotógrafo a possibilidade de propagar na internet e manipular através de softwares de edição de imagens. No terceiro quesito, quando percebe-se uma fronteira não mais tão clara entre o que seria figurativo ou abstrato na produção fotográfica, em que o artista, ao explorar os recursos de sua câmera e de pós-produção (edição), altera as fronteiras destinadas unicamente a pintura ou a fotografia: tanto podem ser interpretados como figurativo ou abstrato a imagem finalizada. Por fim, discute-se o atual e o virtual ao pensar na fotografia apresentada nas redes sociais de compartilhamento na internet e na própria imagem virtual, aquela que se dá como potência do atual, como já defendeu Pierre Lévy.

Para Machado, pensar nessas tensões não se trata apenas de uma estratégia para compreender as novas imagens; essa seria a maneira como a indústria cultural agora funciona. Pois esse momento provocou a automatização da imagem, tendo seu início no século XIX com as primeiras câmeras, e contribuindo para a consolidação de uma indústria cultural; as ditas “belas artes” passam a não ser mais destinadas exclusivamente a poucos apreciadores. Se considerarmos aqui a fotografia digital e os sites que possibilitam a criação de redes na internet, é possível dizer que a produção e conseqüente propagação assumem outras proporções. Não se trata necessariamente de uma “nova fase” na fotografia, com relação a sua linguagem; mas sim de uma multiplicação na forma em que as imagens podem ser apresentadas (e representadas) ao público – amador ou profissional.

Essas discussões fazem parte do que venho me interessando. Espero poder contribuir com as pesquisas sobre fotografias quanto ao seu compartilhamento na web, no referente aos seus suportes de expressão; aprofundando questões relacionadas aos processos psicossociais em decorrência do contato com as tecnologias da comunicação e suas apropriações.

Marimoon, fotolog e pós-feminismo

Em pose de coelhinha. Fonte: <fotolog.com.br/marimoon/87002623>

Nesse sábado (12), estarei apresentando um trabalho no Intercom Nordeste 2010, sobre a usuária do fotolog MariMoon, e como ela poderia ser um exemplo do que Angela McRobbie vem chamando de pós-feminismo. Desse modo, argumento como um novo regime de gênero, baseado numa negação de antigas bandeiras defendidas pelo feminismo surgido nos anos 1960, na auto-afirmação como mulher desprovida de qualquer discurso político coletivo, representa uma parcela dos usuários da internet – nesses sites de compartilhamento de conteúdos.

McRobbie, em seu livro The Aftermath of Feminism: Gender, Culture and Social Change, sugere que, com a ajuda das bandeiras de liberdade e escolha que agora estão conectadas com as jovens, o feminismo parece ser redundante. O pós-feminismo atua para instalar todo um repertório de novas significações que enfatizam que o feminismo não é mais necessário – ou, ainda, que é uma força perdida. Há um tom individualista nos problemas, dúvidas e anseios das mulheres, quando se nega uma busca direta por um bem coletivo – mas sim uma busca que se dá de forma indireta, não-intencional, onde o bem-estar de um indivíduo pode ocasionar melhorias para um conjunto.

Dessa forma, percebe-se um deslocamento do feminismo como um movimento político. Pois Para ser uma jovem, é necessário este tipo de denúncia ritualística que nega o feminismo como uma estratégia de ação; inclui o feminismo no passado e o marca como pertencente a outra geração; logo, está “ultrapassado”.

E o que isso tem a ver com MariMoon? A dona do fotolog mais popular do Brasil, com 60 mil visitantes por semana, tem um discurso baseado na auto-afirmação, de uma necessidade sua de se representar perante a uma rede de contatos/fãs. Na minha análise de sua página, as discussões giraram em torno da cor do cabelo ou da beleza de MariMoon.

Suas fotos Fotos tem um forte apelo ao corpo. Para McRobbie, tal comportamento endossa a irônica “normalização” da pornografia. Ou seja, se auto-afirmando como mulher, sem recalques de transparecer sua sensualidade, sua sexualidade, ela quebra tabus e indiretamente proporciona conquistas para o público jovem que a admira. E isto se apresenta como uma prova de sofisticação e de se parecer agradável a um público jovem, na qual ela se comunica em seu fotolog; como uma busca por ser “cool”. Pois os comentários se repetem em elogios à sua beleza e ousadia, em todos os posts.

A mulher admirada nessa rede assume suas ansiedades, sua vida particular; evita qualquer representação erótica de si e aproveita sua sexualidade sem medo, longe dos padrões sexistas tradicionais. Daí residem as características de gênero naquilo que McRobbie conceitua do que pode ser o momento contemporâneo da representação da mulher. Tendo se inserido na internet, a mulher nega essa competência atribuída pelo feminismo em se representar enquanto ser político, histórico. Negar isto torna-se essencial, ainda que propostas de direitos de expressão da mulher possam ser conquistados através de ações de usuárias inseridas nessa cibercultura de compartilhamento de fotografias.