Mídias sociais e representação: alguns apontamentos temporais

Trazendo essa para o campo teórico da comunicação, Scott Lash, em seu livro Critique of information, faz uma distinção entre os meios de comunicação de massa e aqueles anteriores a estes. Para ele, a diferença se dá principalmente numa dimensão temporal.

Os meios massivos operam, via de regra, por meio da apresentação: apenas apresentando a informação – ainda que não possa ser ignorado o juízo de valor do repórter. Há obviamente convenções e protocolos para a produção da informação: se é um telejornal ou um jornal diário, por exemplo. Porém, isto são protocolos, métodos para apresentação, e não representação. Eles compreendem um enquadramento da apresentação dos assuntos, a depender do veículo; e tratam de uma seleção de sinais cujos espectadores recebem. E a duração de cada meio concebido – um telejornal, um jornal diário, um programa de rádio – é até a próxima edição desse meio. Ou seja, após um tempo, a informação é ressignificada apenas pelos desdobramentos em edições posteriores dos veículos, e não por outros atores (recepção). A não ser que estes influenciem diretamente o curso do próprio desenrolar dos fatos…

Já com relações às mídias anteriores a estas, opera-se por meio da representação: acadêmicos, pintores, atores, escritores, dentre outros, trabalham em uma duração do tempo maior. Um livro pode ter influência por anos, ser discutido décadas depois, ou pode demorar anos para ser escrito – uma escala de tempo diferente da de um jornalista. Concerne ao espectador sempre ressignificar os discursos: contrapondo, acrescentando ou reformulando-os.

Se levarmos em conta a possibilidade das mídias sociais, é possível refletir que estes, assim como as mídias anteriores às massivas, operam por meio da representação, pois os usuários sempre combinam as informações recebidas com as que possui, e trabalham na produção de sentido diferente dos padrões de broadcasting[1]. Comparado aos meios massivos, o conteúdo gerado pelos usuários nas mídias sociais não requer a velocidade das primeiras para a aproximação do usuário com o conteúdo produzido pelos demais. Pois a informação estará sempre presente, acessível para aqueles interessados em interagir com esta. Ainda que atualizações venham a ter maior destaque à posts mais antigos, é possível ainda interagir com estes; além do que, não existe a urgência pelo consumo da informação postada.

Ainda, cada novo conteúdo inserido em um mesmo post, alterará o modo como a percepção do todo operará na representação. Tomando como análise um post no site Flickr, cada novo comentário terá a potência de uma nova informação presente no mesmo conteúdo. Portanto, novas possibilidades de ressignificação da mesma foto podem ser construídas de acordo com a recepção que um dado conteúdo inserido tiver sobre os usuários interagem com essa foto. Como exemplo, no post da usuária Dilma Rousseff (11 de abril) na qual ela registra o uso do Twitter pela primeira vez.

Post da usuária Dilma Roussef, candidata nessas eleições. Fonte: http://www.flickr.com/photos/dilma-rousseff/4512632528/

Post da usuária Dilma Rousseff, candidata a presidente; comentários ressignificam o discurso.

É possível perceber, no post, que Dilma procura se representar como alguém iniciando uma “vida” de usuária de plataformas de redes sociais na internet, ao mesmo tempo que revela ser a própria quem atualiza, e não uma assessoria. Sem esquecer o fato dela ser candidata nas eleições para presidente desse ano, um usuário do Flickr comentou no post sobre o fato de que, por só estar nesse ano fazendo uso dessas mídias sociais, toda sua participação se configura como mais uma “ação eleitoreira”, e não uma vontade dela em interagir com os usuários por outros moitvos. Daí, a discussão no post foi direcionada para essa questão, e vários usuários tentaram defendê-la argumentando que Dilma não é “oportunista”, ou que sempre foi aberta a ouvir as pessoas, enquanto, por outro lado, usuários chamaram-na de “mentirosa”, que estaria “posando de conectada” – dando a entender que não é ela quem mantém suas contas no Twitter e Flickr.

Nesse exemplo, percebe-se uma atitude reflexiva: tanto por parte de quem emite mensagem – configurada através de estratégias de gerenciamento da expressão emitida – como por parte de quem recebe – aqueles que recombinaram o discurso inicial centrando numa discussão acerca de comentários surgidos à foto, ressignificando assim de acordo com as discussões surgidas nos comentários ao post.

Numa dimensão temporal, as mídias sociais têm a maior duração também devido ao fato que não operam necessariamente baseadas na velocidade das informações, que possam manter os espectadores abastecidos por desenrolares de um dado assunto na agenda da mídia – a exemplo do post supracitado. Não se pretende, aqui, julgar que há um movimento em direção a resgatar o poder de representação da mídia, mas sim uma conseqüência das possibilidades oferecidas com a web 2.0.


[1] É necessário uma ressalva, aqui, quanto ao impacto de uma notícia em um determinado indivíduo, que pode criar um determinado quadro sobre um dado assunto e/ou influenciar no seu comportamento perante ao mesmo – ainda que isto possa ocorrer de forma inconsciente. Sem esquecer também do poder de uma determinada notícia se fazer num conjunto: a inserção de um quadro na agenda de um veículo sobre um determinado tema pode formar a opinião dos seus leitores, ouvintes ou telespectadores.

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Categorizamos as imagens, sempre

Criadores, colecionadores, curadores e espectadores atribuem textos às imagens. Estes tendem a ser categóricos, no sentido de que representam classes de coisas que compartilham atributos comuns com outras coisas, como o modo que uma imagem ou grupos de imagens podem ser diferenciados de outras imagens ou grupo de imagens. Não vou aqui abordar essa questão em algum plano filosófico, ou mesmo semiótico, sobre como criamos textos (significados) a tudo que nos deparamos, como forma de nos adaptarmos a realidade a partir de elementos tangíveis à nossa cognição. Partirei, sim, de um ponto de vista semântico.

Podemos ver, sem nomear o que vemos; no entanto, não podemos pensar sobre o que vemos sem caracterizar essa experiência cognitiva através da linguagem. A nomeação de imagens e objetos que lhes estão associados estabelece eixos de sentido que podem ser comunicados aos outros.

Em seu artigo Cognitive Reference Points, Eleanor Rosch argumenta que quando as pessoas nomeiam um objeto, eles contam com a economia cognitiva derivada de atributos oferecidos em uma imagem para classificar esse objeto em alguma categoria de base útil. É possível assim falarmos sobre as imagens usando palavras, e não usando outras imagens.

Rosch dividiu então esses níveis de classificação visual em superordenado, que contém ou classifica o nível básico do objeto, bem como uma série de outros objetos que tenham atributo específico em comum; há ainda o nível subordinado de categorização, cujo espectador aprofunda o referencial do objeto visto, sendo suscetível de responder com uma categoria que tem menos atributos em comum do que qualquer das categorias de base ou superordenadas do mesmo objeto.

Post do Flickr. Categorizamos através de legendas, tags, títulos, comentários...

Por exemplo: ao ver a fotografia de um carro, um espectador responde provavelmente ao nível básico – se trata de um carro – do que se refere a ele como um meio de transporte (superordenado). Ainda, aquele possuidor de conhecimentos específicos poderá remeter para a foto acima exemplificada como um Volkswagen Fusca 1967. Nesse nível, enquanto que o termo se destina a definir mais claramente o objeto da fotografia, tal ação disto introduz ainda outro problema de usar palavras para as imagens – ou mesmo inserir tags, em sites de compartilhamento. Se tentarmos buscar uma palavra como “1967”, todas aquelas que forem etiquetadas com tal palavra aparecerão na busca – uma infinidade.

Assim, coleções de imagens são estruturadas em torno desse tipo de categorização superordenada, básica e subordinada. Estariam dessa forma também sendo categorizadas nessas redes de compartilhamento de fotografias?

À primeira vista, essa abordagem parece ser uma solução lógica, dando oportunidade de organizar as imagens a fim de oferecer padrões de acesso funcional. No entanto, acessos à imagem física e digital representam dois aspectos diferentes em relação à categorização. A obra (original) não pode ser “pendurada” em dois lugares ao mesmo tempo, embora possa condizer com mais de uma categoria; e uma imagem na internet pode ocupar e ser vista em diversas categorias diferentes, representando mais de uma vez. Dessa forma, uma diferença crucial surge nessa forma de categorizar, se for comparar ambientes online e offline: a possibilidade de uma mesma iamgem estar presente em mais de uma categoria – o que auxilia a uma mais precisa busca por estas.

Concluindo, nenhum indivíduo ou grupo, não importa quão profissional ou especialista em um dado segmento, pode capturar todas as impressões invocadas por uma imagem. Criamos texto para darmos referências às imagens, e o que esperamos representar aos usuários, no sentido de construir um discurso de si; mesmo sabendo que nunca uma imagem se esgota no número de palavras nas quais podemos atribuí-las, isto é melhor percebido através do contato com outras pessoas – no que estas imagens representam para elas.

Onde estão meus amigos do Fotolog?

Página inicial do Fotolog: poucas mudanças com o passar dos anos, no geral

Em uma primeira análise, a resposta para a pergunta do título desse post seria: em nenhum lugar. Isto porque, o Fotolog, que num tempo longínquo para esse ambiente online – no início e até meados dessa década – era um dos sites de redes sociais mais populares no Brasil, passou a perder força a partir de 2005 e atualmente é utilizado por um número bastante inferior: é apenas o 416º e o 75º no Brasil, de acordo com a medida de traffic rank do Alexa.

Em 2004, no seu período mais expressivo, o Brasil tinha mais de 200 mil fotologs, sendo à época o país com maior número de fotologs cadastrados no sistema. Já no início de 2006, o site retirou as estatísticas do ar – provavelmente devido a perda no número de usuários, se comparado proporcionalmente a outros sites que cresceram. No próprio site, as estatísticas apresentadas são de 2008, e não fazem mais referências a comparações com outros sites promotores de redes sociais no Brasil.

Por que isto aconteceu?

Fazendo uma análise mais considerável, pensei nesse post ao começar a vasculhar minha antiga conta no site, e relembrar um pouco os momentos passados, e como estes foram bons o suficiente para achar que não poderiam ter acabado. Daí, passei a procurar por motivos que tenham ocasionado um desinteresse pelo site por parte dos brasileiros, em geral. Penso em dois motivos, que inclusive podem caminhar juntos: (1) o fotolog possui muito menos recursos de personalização e interação se comparado a outros sites e (2) outros sites, a exemplo dos sites de relacionamentos como Orkut e Facebook, passaram a adotar recursos de compartilhamento de fotografias semelhantes aos do fotolog, impulsionando assim seu esquecimento.

Na primeira proposição, é reconhecido o descaso da equipe do Fotolog no desenvolvimento de mais recursos para dinamizar as interações, e poder personalizar ainda mais as páginas dos usuários – as formas como os usuários se representam para os outros. Olhando o site hoje, me vem a mesma imagem de quando usava-o em 2004: mesmo layout, poucas alterações quanto a ações possíveis de se fazer em cada post – apenas inserir comentários para quem visualiza um post, e apenas inserir legenda e a foto em um único tamanho para quem faz a postagem.

Já a segunda diz respeito a outros sites de redes sociais virem a suplantar a função do fotolog a medida em que passaram a dispor dos mesmos recursos do site aqui tratado, e quando não mais. Como o Orkut, que ampliou a página de fotos dos usuários: o que até 2006 era para no máximo 12 fotos, é atualmente ilimitado e pode ser organizado por “álbuns”, receber comentários e marcar pessoas nas fotos, além das configurações de privacidade; ou o caso do Flickr, que em certa medida absorveu usuários do fotolog em virtude da quantidade de recursos a disposição dos usuários. Assim, as pessoas continuaram a compartilhar suas fotos, porém em outros ambientes, em muitos casos em mais de um.

Ainda assim, sinto falta de algo que só foi possível ser obtido no Fotolog – pois acredito que cada rede social tem suas particularidades unicamente inerentes a mesma. Havia, lá, uma ambiência que favorecia o estabelecimento de laços fortes, e isto se dava principalmente a partir do compartilhamento de experiências cotidianas, acima de discussões acerca de questões estéticas que a própria foto viesse a suscitar. Ainda que isto possa ter continuado para outros usuários, em outras redes, existia um público específico que se encontrava por lá, que não mais achei nesses dois sites acima usados como exemplo para o enfraquecimento do fotolog. E não acredito que isto tenha ocorrido apenas comigo. Pensando nesse viés, provavelmente um público mais jovem se aproprie de outras redes, da forma como nós – eu meus amigos – fizemos com o fotolog; ou como uma geração anterior a minha se apropriou das listas de discussão.

Então, a resposta mais convincente para o título desse post seria: em vários lugares.

A foto com mais tags

Reprodução do site Glasto Tag

Reprodução do site Glasto Tag

Essa semana li a respeito[1] de uma foto do Facebook com mais tags. Trata-se de uma panorâmica feita em um festival inglês, o Glastounburry, na qual é possível para aqueles presentes ao evento marcá-lo na foto. A idéia é simples: se você achou algum conhecido na foto, marca-o através do seu perfil do Facebook; como os mais de 7 mil presentes já fizeram – o que representa 10% de um total de 70 mil participantes do festival.

Interessante esse “engajamento” por se mostrar presente a um evento. Em poucas horas de sua publicação no site Glasto Tag, a foto já contava com 3.295 marcadores identificando pessoas. A foto estreou no dia 1 desse mês, e as pessoas foram divulgando a idéia e assim elas vão se identificando. Vale lembrar que não se trata de participar apenas pelo espírito de comunhão: é necessário estar presente ao festival para ao menos começar a procura por si na panorâmica. Por serem compartilhadas no Facebook, a atividade de inserir tags transformou-se em uma busca coletiva.

Ação como esta se assemelha, a meu ver, com aquela forma de se fazer propaganda que remete ao registro de um dado acontecimento histórico – a publicidade do “eu fui”. Lembro que um amigo meu tinha um poster do Rock in Rio 3, com esses dizeres, no qual ele marcou onde estava. Uma forma de se fazer história: de se mostrar presente em um acontecimento importante. Nesse caso, se dá de forma muito mais dinâmica e veloz, pelas próprias características do ambiente em que a foto está inserida. Óbvio que se trata de uma estratégia de comunicação pensada por profissionais de mídias sociais[2].

Porém, esse caso de trabalhar com a memória dos personagens em uma foto me lembrou do trabalho do fotojornalista Evandro Teixeira, o qual resolveu fazer essa busca por indivíduos numa foto de multidão realizada na passeata mais marcante à época da ditadura. De cunho mais político, o projeto resultou no livro “68: Destinos. Passeata dos 100 Mil”. É valioso o registro, pois ele vai atrás dos personagens desse momento histórico no Brasil, e passa a traçar um perfil de 100 pessoas – como eles chegaram até a passeata, e qual a sua ocupação atualmente: o que aquele momento influenciou em suas vidas. Uma forma de deixar marcado na memória aqueles que são encarados como meros figurantes. Curioso notar casos em que pessoas nas quais até o momento daquela foto não se conheciam vieram a se casar muitos anos depois.

Reprodução da capa do livro "68: Destinos. Passeata dos 100 Mil"

Após o exemplo, gostaria de terminar reforçando a possibilidade desses marcadores nas fotos como elemento constituinte de práticas interativas. Algo que há algum momento atrás gerou inclusive polêmica quando o Orkut retirou a possibilidade de inserir essas marcações nas fotos. O leitor deve se lembrar dos casos em que se faziam painéis com personagens, em que um usuário atribuía aos seus amigos – e inimigos – personagens de acordo com a personalidade de cada um. A justificativa para a retirada dessas marcações manuais foi devido a queixa de usuários que eram marcados indevidamente nas fotos: se existia a possibilidade de marcar qualquer coisa, desde um objeto na foto ou alguém que na verdade não se trata daquele marcado, era com isto possível, no mínimo, zoar com os amigos.

A partir de então, é o próprio sistema quem se encarrega de reconhecer o rosto nas fotos, e cabe ao usuário apenas a identificar quem é. O que restringiu essa possibilidade de interação, ao mesmo tempo em que ainda causa certo constrangimento quando o usuário não é marcado automaticamente na foto. Como José Carlos preceitua, são as variáveis técnicas que intervém nas sociais, como também o contrário. Já nesse site aqui tratado, o barato é justamente a identificação e marcação manual dos participantes.


[1] Por indicação de Tarcízio Silva.

[2] Trata-se de uma ação da operadora de celular Orange, em parceria com o festival e Facebook.

Interação, tecnologias digitais e sociedade

A partir dessa semana passo a colaborar também para o site do Grupo de Pesquisa em Interação, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS), no qual sou membro desde o ano passado. Coordenado pelo professor José Carlos Ribeiro, o GITS é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PósCom), da UFBA. E o site já está no ar há duas semanas, e terá contribuições de todos os seus membros.

Notícias sobre internet, tecnologias contemporâneas e mídias sociais; discussões acerca de cibercultura e processos psicossociais; além dos relatos das reuniões semanais do referido grupo compõem as temáticas abordadas nos posts. É possível também ter acesso às publicações mais recentes de todos – artigos em revistas e anais de eventos e capítulos de livro. Assim, o site é mais um mecanismo de promoção do grupo: busca divulgar os trabalhos desenvolvidos e as discussões correntes.

Pesquisa
Tendo seu início em maio de 2009, o GITS lida, em suas pesquisas e atividades, com temas como colaboração, games e comunidades virtuais, cibersocialidade, compartilhamento de vídeos e imagens, dentre outros. De acordo com a própria descrição no site, tem como interesse principal o estudo de questões relacionadas às mudanças nos processos psicossociais em decorrência do contato com as tecnologias da informação e da comunicação e suas apropriações.

É no grupo em que desenvolvo minha pesquisa do mestrado – junto com outros companheiros do PosCom: o doutorando Thiago Falcão e os mestrandos Ruan Brito, Tarcízio Silva e Maria Alessandra. Demais integrantes são professores da UFBA e outras faculdades de Salvador, como também estudantes de graduação. Ainda, mais informações podem ser obtidas pelo twitter do GITS.