Lugares da sociabilidade

Discentes da linha de cibercultura discutirão suas pesquisas no “Lugares da Sociabilidade: I Seminário dos Grupos de Pesquisa em Cibercidades (GPC) e em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS)”, entre os dia 13 e 15 de outubro. Organizado pelo GITS e GPC, ambos vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporânea da UFBA, o evento acontece no auditório da Faculdade de Comunicação, no Campus de Ondina, das 18 às 22 horas .

Os debates vão tratar de questões relacionadas à comunicação, tecnologias e práticas sociais. Os temas a serem abordados agrupam-se em mesas temáticas sobre: Cartografia colaborativa; Game Studies; Dispositivos Móveis e Redes Sociais; Jornalismo Móvel e Mídia Locativa; Interação e Redes Sociais; e Dispositivos Móveis e Jornalismo Digital. Participa também do seminário o professor doutor Vinicius Neto (UFF), proferindo a palestra de abertura “Prática, Comunicação e Espaço. Uma reflexão sobre a materialidade das estruturas sociais”.

Estarei participando do evento com a palestra Compartilhamento de fotografias na web: Estudo dos usuários do site Flickr, a ser realizada no dia 15. Em outra ocasião falarei mais da mesma.

A coordenação do evento é dos professores da UFBA André Lemos (GPC) e José Carlos Ribeiro (GITS). Inscrições gratuitas no Nicom (segundo andar da Facom/Ufba), através do telefone (71) 3283-6182 ou do e-mail nicom@ufba.br. Lembrando que as vagas são limitadas! Veja a programação completa e mais informações aqui.

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A criação de redes de compartilhamento de fotografias

A definição do que se entende por redes compartilhamento de fotografias, aqui, delimita-se à formação de agrupamentos humanos – por mais de um nó e conexão – em que é possível estabelecer laços em virtude do compartilhamento de interesses centrados na fotografia. E isto se dá a partir de fotografias exibidas em algum suporte – impresso ou digital -, situadas através da mediação em ambientes físicos ou virtuais.

Carte-de-Visite: criação de Disdéri ajudou na popularização da fotografia e de um formato de cartão usado até hoje, não apenas por fotógrafos

Desse modo, partindo para um plano histórico da fotografia enquanto objeto passível de interações – nesses ambientes físicos -, é considerado aqui o ato de compartilhar a partir do segundo momento do aperfeiçoamento dos processos fotográficos; a saber, a descoberta do cartão de visita fotográfico (carte-de-visite) por André Disdéri (1819 – 1889), que coloca ao alcance de muitos o que até aquele momento, segundo Fabris – em seu artigo A invenção da fotografia: Repercussões sociais – , “fora apanágio de poucos e confere à fotografia uma verdadeira dimensão industrial, quer pelo barateamento do produto, que pela vulgarização dos ícones fotográficos em vários sentidos” (p. 17).

O primeiro momento estende-se de 1839 aos anos 1850, quando o interesse pela fotografia se restringe a um pequeno número de amadores, provenientes das classes abstadas, que podem pagar os altos preços cobrados pelos artistas fotógrafos. Dessa forma, esse momento é restrito a apenas uns poucos afortunados, que queriam ter seus registros visuais, e não se interessavam até então a estabelecer uma cultura visual, na qual fotografias são compartilhadas.

Já no segundo momento histórico, a construção de representações passa a fazer sentido quando Disdéri fotografa o cliente de corpo inteiro e o cerca de artifícios teatrais que definem seu status, longe do indivíduo e perto da máscara social, numa forma de representação de si em que se fundem o realismo essencial da fotografia e a idealização intelectual do modelo. Segundo Fabris (p. 21):

É por isso que não hesita em embelezar o cliente, aplicando a técnica do retoque. O “agradável”, ameaçado pela exatidão da fotografia, torna-se o grande trunfo do fotógrafo industrial, que pode fornecer à clientela sua imagem “num espelho”… complacente.

Nessa citação, é percepetível aqui já toda uma estatégia de gerenciamento de impressões; isto porque aquele fotografado tinha a preocupação em se representar para aqueles que compartilhava, de modo a revelar traços positivos de si.

Por volta de 1880, tem início a terceira etapa: é o momento de massificação, quando a fotografia se torna fenômeno prevalentemente comercial, sem deixar de lado sua pretensão a ser considerada arte; como também a discussão, à época, sobre os limites da pintura figurativa em apresentar o “mundo real” – algo que só seria possível pela fotografia, como defendiam alguns adeptos desse novo meio.

É nesse momento, principalmente com a produção das câmeras compactas, e o surgimento de uma grande indústria de câmeras – a Kodak, de George Eastman (1854-1932) -, que é possível perceber como a partir daí as fotografias criam uma cultura de compartilhar, que até o momento atual faz com que indivíduos participem; porém, a partir da década de 1990, através da internet, houve uma ampliação na difusão das fotografias, e no estabelecimento e manutenção de laços com aqueles fisicamente distantes. Nesse ambiente, outra tecnologia se torna fundamental para o crescimento no uso: a digitalização da imagem. Mas isto já é outra história.

Arte e comunicação: aproximações com a arte telecomunicacional

As mudanças no fazer fotográfico foram causadas pela velocidade dos meios de transporte, pela globalização político-social, pelo desenvolvimento de tecnologias de comunicação e com o surgimento do ciberespaço. Com a internet – através de sites de compartilhamento –, a comunicação entre os próprios artistas ou entre artistas e público possibilita algo mais direto, pois o artista sempre estará visitando a “galeria” para observar como usuários interagiram com as fotografias – quais as mais comentadas, as mais visitadas, as mais indicadas. É também uma forma de comunicação – uma arte telecomunicacional. Esta seria definida por Roy Ascott[1] como toda a produção artística que faz uso das tecnologias telecomunicacionais para se expressar: por fios, ondas sonoras, meios ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético.

Esses artistas estavam alinhados aos questionamentos conceituais sobre o objeto de arte que acabaram culminando em eventos de performance, happening, arte em processo e utilização de novos meios de comunicação, como as máquinas fotocopiadoras, as serigrafias, o off-set, os postais as fotografas e os diapositivos. O início se dá na arte postal, na medida em que esta propunha o intercâmbio de trabalhos através de uma rede transnacional e livre e paralela ao mercado oficial da arte.

Arte postal de Paulo Bruscky (sem título, acervo pessoal, 1976), pioneiro no Brasil nesse campo e um dos maiores colecionadores no mundo

À medida que a rede de arte postal crescia, grupos publicavam listas de endereços para interessados em trocar trabalhos e idéias. Suzete Venturelli[2] conta que como a maioria dos trabalhos estavam relacionados com a arte conceitual e a performance, cujos resultados eram fotografados, e muitas correspondências constituíam-se dessas imagens. “A natureza democrática de sua prática e o fato de constituir uma rede situaram-na em oposição ao elitismo da arte de galerias e museus”.

Já com a pop-art, a relação da arte com os meios de comunicação estreitaram-se por meio de artistas como Roy Lichtenstein, Andy Warhol e Tom Wesselman. A rede que se formava fora do mercado e das instituições criava uma “economia do imaterial”, diz Venturelli: idéias e discussões compartilhadas, sendo as obras não mais vendidas como únicas. Décadas seguintes foram marcadas por forte experimentação com os meios tecnológicos e comunicacionais que, com o tempo, surgiam e se apresentavam aos artistas como possibilidades de criação e difusão. A exenplo de investidas na arte em vídeo, na holografia e no computador.

Portanto, já existia uma arte que fazia uso de redes sociais de compartilhamento antes da internet; porém, são percebidas aqui duas diferenças: a amplitude da rede social e a possibilidade de englobar rapidamente novos fruidores que não sejam apenas artistas; pois na internet a possibilidade de comunicação se amplia e o pólo emissor (artista) pode se comunicar de um ponto a diversos de uma rede sem ao menos endereçar a alguém especificamente – basta estar no ciberespaço, com seu trabalho divulgado em qualquer página da web. Não deve se esquecer aqui o fato de que os próprios museus e galerias, pela quantidade de pessoas envolvidas no fazer das exposições – artistas, curadores, produtores, público – já se constitui uma rede, embora não telecomunicacional como aqui exponho. A mediação, nesse caso, se dá através das mídias e do artista, e não pelas instituições e curadores.

Esse ciberespaço, diz Venturelli, tornou-se um lugar de aproximação e sociabilização da arte e do público, sem intermediação de instituições artísticas, tais como museus, galerias de artes e eventos como as bienais. O advento de meios eletrônicos se constituiu em algo algo de valor para a criação de obras intercambiantes e mutantes, abertas na direção de uma cultura através de redes sociais. Assim, percebe-se que a relação estabelecida entre a arte e o espaço comunicacional, principalmente longe dos habituais espaços de exposição artísticos, é uma morada dos trabalhos artísticos há mais de 20 anos.


[1] Livro Telematic Embrace: Visionary Theories of Art, Technology and Consciouness (2003).

[2] Livro Arte: Espaço tempo imagem (2004).