Trabalhos no IV Simpósio ABCiber e Intercom 2010

O site do IV Simpósio Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCIBER) já está na rede, com a chamada para trabalhos – artigos científicos, propostas de oficinas, mesas temáticas e exposição, e memoriais descritivos de performances. O evento acontecerá entre os dias 1 e 3 de novembro, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O deadline para envio desses trabalhos é dia 12 de outubro. Os eixos temáticos nesse ano são dez: Redes Sociais, Comunidades Virtuais e Sociabilidade; Jogos, Mundos Virtuais e Ambientes Colaborativos (P2P); Entretenimento, Produção Cultural e Subjetivação; Biopolítica, Vigilância e Ciberativismo; Políticas, Governança e Regulação da Internet; Educação, Processos de Aprendizagem e Cognição; Jornalismo, Mídia livre e Arquiteturas da Informação; Mobilidade, Espaço Urbano e Movimentos Sociais; Estéticas, Coletivos e Práticas Artísticas; Publicidade, Comércio e Consumo.

Este é o evento nacional que sempre me interesso por participar, em virtude principalmente da possibilidade de manter contato com estudantes e professores de todo o país com interesses semelhantes ao meu; como também perceber quais as pesquisas acontecendo nos outros programas de pós-graduação. Fundada em 2006, a ABCIBER é uma entidade que congrega pesquisadores e instituições em torno de temáticas pertinentes ao campo de estudos interdisciplinar sobre o fenômeno da cibercultura. No ano passado, o Simpósio aconteceu em São Paulo, na ESPM – no qual lá estive apresentando o artigo Compartilhamento de fotografias na web: reflexões a partir da perspectiva do interacionismo simbólico.

Intercom
Com relação ao Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom 2010) – em Caxias do Sul, entre os dias 3 e 6 de setembro – todos os trabalhos já estão publicados no endereço http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2010/index.htm. Vale a pena acessar, inclusive para quem, como eu, infelizmente não poderá ir. Este é o maior evento científico do campo da Comunicação no Brasil. Além do referido Congresso, acontece também outros cinco eventos regionais: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

Pesquisadores do GITS – no qual faço parte – estarão no Intercom. Tarcízio Silva organizará uma oficina sobre jogos sociais com Thiago Falcão, e ambos apresentarão o artigo Gerenciamento de Impressões através de aplicativos sociais: uma proposta de análise, escrito também por José Carlos Ribeiro – orientador meu e deles.

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Humanos e não-humanos no compartilhamento de fotografias

Venho estudando, por esses dias, a emergência de humanos e não-humanos em redes de compartilhamento de fotografias. Para tanto, utilizo a Teoria Ator-Rede para a compreensão da dinâmica das interações em um post no site Flickr.

Acredito que compreender a dinâmica das redes sociais requer uma análise não apenas nos processos de interação decorrentes de dois ou mais indivíduos. É necessária a atenção para a presença de atores não-humanos também intervenientes no referido processo. Trazendo a discussão para internet, é preciso se dar conta da presença de variáveis técnicas específicas para cada ambiente interativo, nos quais produzem mecanismos de interação que os tornam únicos, sendo assim difícil de transportar as mesmas dinâmicas de um ambiente a outro.

Essas variáveis técnicas são fornecidas pela equipe desenvolvedora dos sites, numa busca constante por promover mecanismos para o estabelecimento de estratégias de representação e de interação entre usuários – ainda que nem sempre alterações e inserções de novas ferramentas no sistema venham a ser bem recebidas pelo público. E a Teoria Ator-Rede pode ajudar na busca por compreender como actantes oriundos de diversas situações – humanos ou não – se inscrevem em um determinado processo de modo a criar redes heterogêneas.

Redes heterogêneas
A Teoria Ator-Rede pesquisa os processos de interação na sociedade, mas sem ignorar o ambiente em que se dá a situação e a presença de outros actantes – no caso, os não-humanos –, os quais também fazem parte do processo, sem a existência de uma hierarquia. Heterogeneidade é um aspecto central de uma rede estável. Quanto mais diversos elementos estão inter-relacionados, mais complexa e estável a rede se torna.

Essa seria o que John Law[1] considerou como uma rede heterogênea. Ou seja, Law diz que o conhecimento adquirido pelos actantes humanos é incorporado em uma variedade de formas materiais. Em uma rede desse tipo, cada elemento é mantido no lugar através de um conjunto heterogêneo de vínculos com outros actantes; a fim de desvincular múltiplos actantes determinados, múltiplas conexões têm de ser desatadas.

A resposta da Teoria Ator-Rede sobre de que modo essas redes são concebidas é de que são o produto final de um trabalho de informações e partes diversas: tubos de ensaio, organismos, mãos hábeis, microscópios eletrônicos, cientistas, artigos, terminais de computador, dentre outros; estes funcionam isoladamente, mas são justapostos numa rede. Sobre isto, assim como nas interações face-a-face, existe uma variável técnica que opera no sentido de possibilitar certas condições para o estabelecimento de interações, de laços de um actante humano na rede.

Este, então, é um dos problemas de pesquisa da Teoria Ator-Rede: a preocupação com a forma em que actantes e organizações mobilizam, justapõem e unem os pedaços dos quais são compostos; como eles às vezes são capazes de impedir os pedaços de seguir suas próprias inclinações e formas de devir; e como conseguem, a partir disto, virar uma rede de um conjunto heterogêneo de pedaços, cada um com suas próprias inclinações.

Flickr
Se pensada a questão a partir do que preceitua a Teoria Ator-Rede, todos os recursos presentes num post, a promover interações e representações, podem ser compreendidos como os actantes, nos quais podem ser gerenciados pelos próprios usuários postam a foto, por aqueles que interagem ou pelo próprio sistema. Estes aparecem de modo a fomentar as interações possíveis a partir do que uma fotografia pode representar para os indivíduos e aos demais.

Indicação (em vermelho) de actantes presentes em um post do Flickr

As interações feitas pelos usuários em um dado post são fundamentais no rumo em que uma dada foto pode ser compreendida pelos demais usuários; ou seja, o processo de representação de um usuário só se completa a partir da interação com os demais. Assim como sugere a Teoria Ator-Rede, a essência é a ação: o momento em que actantes se dão ao encontro. Por exemplo, um comentário em uma dada foto pode alterar toda a ordem de um discurso presente em um post; ainda, pode até fazer com que a foto tenha menos importância para aqueles que interagem no mesmo, para ser assim tomado como foco de atenção o que foi comentado pelos usuários.

Trabalhando em conjunto, os actantes presentes no Flickr possibilitam a formação de redes heterogêneas, pois é no conjunto das ações desenvolvidas que se dá a emergência de toda uma dinâmica das interações no ambiente do referido site. E é isto que possibilitará o estabelecimento de laços nessas redes, de acordo com os interesses de cada um.

Acredita-se que a Teoria Ator-Rede possa inclusive ser importante para questionar a concepção tradicional que se tem de redes sociais na internet, tendo em visto o modo como se valoriza a presença de outros actantes exteriores ao próprio indivíduo: aparecem como apenas um suporte, um meio para a interação entre humanos; não há a devida compreensão da simetria entre humanos e não-humanos, dependentes entre si.

É isto, e mais um muito, que posteriormente vou trabalhar.


[1] Artigo Notes on the theory of the actor­network: ordering, strategy and heterogeneity (1992). Vale também salientar que o termo actante é utilizado pela Teoria Ator-Rede para designar aqueles que agem em uma determinada situação.

A Teoria Ator-Rede pesquisa os processos de interação na sociedade, mas sem ignorar o ambiente em que se dá a situação e a presença de outros actantes[1] – no caso, os não-humanos –, os quais também fazem parte do processo, sem a existência de uma hierarquia. Heterogeneidade é um aspecto central de uma rede estável. Quanto mais diversos elementos estão inter-relacionados, mais complexa e estável a rede se torna.


[1] O termo é utilizado pela Teoria Ator-Rede para designer aqueles que agem emu ma determinada situação.

Compartilhamento de fotografias não é mais o primeiro interesse

Pesquisas recentes acerca dos sites de redes sociais (SRSs) tem constatado que são os jogos sociais o motivo pelo qual os usuários participam dos mesmos. Dessa forma, o compatilhamento de fotografias fica em segundo lugar no que se refere ao principal interesse; e é possível salientar uma relação disto com o crescimento do Facebook, que apresenta um grande número e variedade de jogos.

Porém, a forma mais comum de contribuição de conteúdo no Facebook é o upload de fotos; a página de fotografias do referido site atrai mais de duas vezes o tráfego se comparado com três maiores sites de compartilhamento de fotografias. Não se trata apenas de fazer o upload de fotos, existem também mecanismos do site para o que Moira Burke, Cameron Marlow e Thomas Lento chamaram de aprendizagem social[1]. Além disso, as fotos aparecem em muitos momentos e páginas, incluindo álbuns recém criados, as fotografias de novos usuários, álbuns de seus amigos, seus feeds de notícias e dos seus perfis; portanto, há muitas oportunidades para ambos a criação de estratégias representação através das fotos e para a experiência do compartilhamento das mesmas. Contudo, há de se ressaltar aqui a atenção dada aos jogos sociais, tanto por parte das pesquisas como pelos usuários.

Jogos sociais
Jogos sociais – da forma como são compreendidos na internet – surgiram no Facebook em 2007, com o lançamento da plataforma. Desde então, passou para mais de 500 milhões de visitantes mensalmente, e mais de 70% dos visitantes utilizam desses aplicativos. No ano passado, os jogos sociais tornaram-se uma das mais populares formas de aplicativos sociais, gerando algo em torno de US$ 500 milhões em receita – a maioria das quais provenientes do Facebook. De acordo com reportagem do site Mashable, Embora o Facebook seja o site com mais usuários, reúne menos de 30% dos visitantes únicos nas redes sociais da internet. Há cerca de 40 SRSs com mais de 10 milhões únicos mensais e cerca de 150 com mais de 1 milhão. As empresas que compõem o restante desse tráfego dos SRSs estão apenas começando a perceber o empenho e os benefícios de monetização dos jogos sociais. Alguns, como o Quepasa, fizeram dos jogos sociais uma parte central de sua estratégia.

Farmville: o mais popular do Facebook

Farmville: um dos mais populares do Facebook

Sem querer discorrer muito acerca dos jogos sociais, cito aqui parte da pesquisa de Raquel Recuero, na qual levanta características fundamentais do público: a idade dos jogadores tem uma variação maior do que a dos games em geral. Como os sites de rede social congregam uma quantidade enorme de pessoas, o comportamento de “cascata” possibilita – assim como com as fotografias – que esses jogos espalhem-se também dentro de redes sociais mais heterogêneas, como círculos familiares. E, por fim, são jogos que necessitam de pouco investimento para aprendizado e que rapidamente oferecem benefícios sociais e individuais para os jogadores – possibilitando assim a aquisição de jogadores.

Fotos
Ainda assim, penso que o interesse por compartilhar fotografias é fundamental para o estabelecimento de laços entre usuários, como também para a inserção de novos usuários. Isto porque é algo anterior à internet, a exemplo dos clubes de fotografias ou das reuniões entre amigos e parentes para compartilhar álbuns. Existe uma afinidade por perceber o que as fotos podem revelar de um indivíduo, e de como são capazes de tecer formas de subjetivação por meio destas.

Sem esquecer aqui de mencionar os sites de compartilhamento de conteúdos, nos quais há também um espaço para o compartilhamento de fotografias. Não quero aqui me posicionar como um defensor disto ou daquilo, mas simplesmente constatar que o impulso por interagir com outros indivíduos através das fotografias perpassa tanto a internet como a afinidade por uma fotografia com um viés mais artístico, digamos. E isto faz com que o ato de compartilhar não perca a importância enquanto recurso para os sites de redes sociais. Ainda, tal impulso trata-se de uma relação complexa, que envolve a ativação de nós semânticos – os quais remetem a momentos diversos de nossas vidas – ou a percepção em torno de uma estratégia de representação do “eu”, dentre outras formas de perceber o fenômeno, e sua fácil adesão.


[1] Artigo: Feed Me: Motivating Newcomer Contribution in Social Network Sites (2009).

Livro: Structures of Image Collections

Essa semana terminei de ler Structures of image collections: From chauvet-pont-d’arc to flickr (2008). Achei interessante pontuações levantadas pelos autores do livro, Howard Greisdorf e Brian O’Connor, no qual examinam historicamente o imenso número de imagens que indivíduos colecionam, bem como as muitas maneiras diferentes de coleções que podem ser organizadas e geridas.

Por que nós colecionamos, como nós colecionamos, como usamos essas coleções, e como vamos construir, manter e acessar coleções de imagens são as questões centrais desse livro. Trata-se de uma abordagem interdisciplinar, cujos autores percorrem bases semânticas, semióticas e sintáticas para explicar como é possível definir, descrever e contextualizar as imagens colecionadas, servindo estas assim como forma de registro de nossas passagens no tempo e espaço – de que modo nos representamos em nosso ambiente, e como isto perdura através dos séculos.

Os seres humanos sempre tiveram uma tendência para colecionar imagens; isto remonta a 30 mil anos atrás, quando os desenhos nas paredes de cavernas serviam para evidenciar a experiência cotidiana. O desafio hoje é que há uma grande disponibilidade – e em outros casos restrições – para visualização de imagens, como também para sua produção. Por conseguinte, dizem O’Connor e Greisdorf, o ato de colecioná-las já não pode ser o resultado de processos para esta finalidade enraizados em metodologias antiquadas. Por isto, eles apresentam essa abordagem interdisciplinar dos princípios, práticas e sistemas cognitivos subjacentes à categorização e gestão de imagem.

O livro está dividido em cinco partes, que por conseguinte se subdividem em capítulos: (1) na definição da natureza das imagens; (2) questões da linguagem inerente a cada imagem; (3) descrevendo como as imagens são colecionadas, incluindo aí o ato de inserção de dados como etiquetas (tags); (4) explicando como as imagens são absorvidas pelo público; (5) e questões futuras inerentes aos mecanismos de armazenamento e de acesso, como a partir da internet e da digitalização na produção de imagens. Cada argumento parte de uma perspectiva histórica sobre o tema e se apóia em uma investigação através de casos reais e exemplos com fotos produzidas pelos próprios autores e amigos.

Gostei da leitura, pois se trata de uma obra cuja abordagem é sobre como é possível compreender que, historicamente, os seres humanos sentiram impulso por estruturar as imagens produzidas de modo a criar referenciais identitários de si e dos seus grupos, como também para facilitar o entendimento da relação de si com o entorno – quer seja através de coleções individuais, museus de arte contemporânea, clubes de fotografias ou em redes de compartilhamento de imagens na internet. Ou seja, a necessidade por colecionarmos imagens é desde que passamos a criá-las, e passará pelas redes sociais, a exemplo do Flickr – o caso mais recente estudado pelos autores.