As mudanças no fazer fotográfico foram causadas pela velocidade dos meios de transporte, pela globalização político-social, pelo desenvolvimento de tecnologias de comunicação e com o surgimento do ciberespaço. Com a internet – através de sites de compartilhamento –, a comunicação entre os próprios artistas ou entre artistas e público possibilita algo mais direto, pois o artista sempre estará visitando a “galeria” para observar como usuários interagiram com as fotografias – quais as mais comentadas, as mais visitadas, as mais indicadas. É também uma forma de comunicação – uma arte telecomunicacional. Esta seria definida por Roy Ascott[1] como toda a produção artística que faz uso das tecnologias telecomunicacionais para se expressar: por fios, ondas sonoras, meios ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético.
Esses artistas estavam alinhados aos questionamentos conceituais sobre o objeto de arte que acabaram culminando em eventos de performance, happening, arte em processo e utilização de novos meios de comunicação, como as máquinas fotocopiadoras, as serigrafias, o off-set, os postais as fotografas e os diapositivos. O início se dá na arte postal, na medida em que esta propunha o intercâmbio de trabalhos através de uma rede transnacional e livre e paralela ao mercado oficial da arte.

Arte postal de Paulo Bruscky (sem título, acervo pessoal, 1976), pioneiro no Brasil nesse campo e um dos maiores colecionadores no mundo
À medida que a rede de arte postal crescia, grupos publicavam listas de endereços para interessados em trocar trabalhos e idéias. Suzete Venturelli[2] conta que como a maioria dos trabalhos estavam relacionados com a arte conceitual e a performance, cujos resultados eram fotografados, e muitas correspondências constituíam-se dessas imagens. “A natureza democrática de sua prática e o fato de constituir uma rede situaram-na em oposição ao elitismo da arte de galerias e museus”.
Já com a pop-art, a relação da arte com os meios de comunicação estreitaram-se por meio de artistas como Roy Lichtenstein, Andy Warhol e Tom Wesselman. A rede que se formava fora do mercado e das instituições criava uma “economia do imaterial”, diz Venturelli: idéias e discussões compartilhadas, sendo as obras não mais vendidas como únicas. Décadas seguintes foram marcadas por forte experimentação com os meios tecnológicos e comunicacionais que, com o tempo, surgiam e se apresentavam aos artistas como possibilidades de criação e difusão. A exenplo de investidas na arte em vídeo, na holografia e no computador.
Portanto, já existia uma arte que fazia uso de redes sociais de compartilhamento antes da internet; porém, são percebidas aqui duas diferenças: a amplitude da rede social e a possibilidade de englobar rapidamente novos fruidores que não sejam apenas artistas; pois na internet a possibilidade de comunicação se amplia e o pólo emissor (artista) pode se comunicar de um ponto a diversos de uma rede sem ao menos endereçar a alguém especificamente – basta estar no ciberespaço, com seu trabalho divulgado em qualquer página da web. Não deve se esquecer aqui o fato de que os próprios museus e galerias, pela quantidade de pessoas envolvidas no fazer das exposições – artistas, curadores, produtores, público – já se constitui uma rede, embora não telecomunicacional como aqui exponho. A mediação, nesse caso, se dá através das mídias e do artista, e não pelas instituições e curadores.
Esse ciberespaço, diz Venturelli, tornou-se um lugar de aproximação e sociabilização da arte e do público, sem intermediação de instituições artísticas, tais como museus, galerias de artes e eventos como as bienais. O advento de meios eletrônicos se constituiu em algo algo de valor para a criação de obras intercambiantes e mutantes, abertas na direção de uma cultura através de redes sociais. Assim, percebe-se que a relação estabelecida entre a arte e o espaço comunicacional, principalmente longe dos habituais espaços de exposição artísticos, é uma morada dos trabalhos artísticos há mais de 20 anos.
[1] Livro
Telematic Embrace: Visionary Theories of Art, Technology and Consciouness (2003).
[2] Livro Arte: Espaço tempo imagem (2004).
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